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XXX Jornadas Internacionais. Resumo de sexta-feira, 29 de maio

29/05/2026

Sexta-feira, 29 de maio

A segunda sessão das Jornadas Internacionais da Mapfre Global Risks contou com especialistas que falaram sobre geoestratégia global, tanto política quanto econômica, bem como sobre setores-chave que desenham um cenário comercial complexo e desafiador.

 

Mesa redonda. ‘Eletrificação, geopolítica global e transição energética: desafios e oportunidades para o seguro’

Esses três conceitos, estreitamente interligados, foram o foco da primeira mesa-redonda da jornada, moderada por Alberto Mengotti, diretor de Subscrição da Área de Energia da Mapfre Global Risks. Ao seu lado, Orlando García, responsável corporativo de Prevenção de Perdas da ENGIE, e Ramón Presa, gerente de Seguros Upstream e Downstream da Repsol, mantiveram uma interessante conversa sobre os grandes riscos e oportunidades enfrentados pelo setor e sobre como o seguro pode contribuir para acompanhar essa transição.

O processo de eletrificação representou um verdadeiro desafio para a transição energética, embora, como destacou Orlando García, cada problema tenha trazido consigo novas oportunidades. Por sua vez, Ramón Presa reconheceu que a Repsol iniciou nos últimos anos um “profundo processo de transformação”, partindo de sua identidade como empresa petrolífera. Nesse processo, como em outras linhas de negócio, conta com o papel viabilizador do setor segurador. “A Mapfre é um grande exemplo nesse sentido”, afirmou, “um parceiro de longo prazo que nos acompanha nos bons e maus momentos e que nos oferece capacidade em praticamente todas as linhas”.

O gerente de seguros da Repsol admitiu que há riscos em toda a cadeia de valor do petróleo, da produção ao fornecimento, e que 35 refinarias foram fechadas na Europa nos últimos anos, mas celebrou que “felizmente, na Espanha, empresas como a Repsol decidiram remar contra a corrente… e apostaram decisivamente em investir no setor de refino… Atrevo-me a dizer que não teremos esses problemas de desabastecimento que outros países da Europa podem sofrer… porque fizemos o dever de casa”.

A conversa também abordou o impacto da geopolítica global e os riscos decorrentes da crescente instabilidade internacional. Pela Repsol, Ramón Presa alertou para a forte dependência da China, tanto no fornecimento de materiais quanto no desenvolvimento tecnológico vinculado à transição energética.

Por sua vez, Orlando García destacou que, em um contexto marcado por incidentes recentes e elevada incerteza, a prioridade absoluta deve continuar sendo a segurança das pessoas. Além disso, advertiu sobre certa inconsistência dos mercados financeiros diante desses acontecimentos e considerou provável que ocorra uma correção, para a qual as empresas precisam estar preparadas. Pela ENGIE, também defendeu maior flexibilidade por parte das seguradoras, bem como um fluxo constante de comunicação, pois considera que o setor pode se tornar um aliado indispensável graças ao seu conhecimento e à sua capacidade de facilitar negócios e disseminar conhecimento. “Estas conversas são um bom exemplo disso”, destacou.

Na Repsol, essa ideia foi reforçada: “O setor pode nos ajudar a compreender melhor os riscos e, por isso, seria conveniente que participasse dos projetos o mais cedo possível e servisse como suporte para sua viabilidade financeira”.

 

Talk: Engenharia. ‘Sensores remotos para a detecção de anomalias térmicas’

A palestra moderada por Óscar Estrada, subdiretor de Inteligência da Mapfre Global Risks, e ministrada por Carlos Bernabéu, CEO da Arbórea Intellbird, foi uma das apresentações mais dinâmicas e interessantes das Jornadas. Durante a sessão, foi apresentada a avançada tecnologia de sensorização térmica aplicada à detecção de riscos, demonstrando tanto seu funcionamento quanto suas aplicações práticas em diferentes ambientes industriais e de prevenção.

Os palestrantes explicaram como essas ferramentas permitem identificar anomalias térmicas de forma precoce, contribuindo para reduzir riscos e evitar perigos. Além disso, surpreenderam o público com uma demonstração ao vivo de um dispositivo capaz de analisar o calor dos participantes e das máquinas presentes no local, despertando grande interesse entre os presentes.

Carlos Bernabéu destacou a importância dessa tecnologia ao afirmar que “buscamos reduzir a tensão e minimizar riscos difíceis de assumir”. Como exemplo prático, mencionou o uso de roçadeiras inteligentes em grandes campos fotovoltaicos, capazes não apenas de limpar o terreno, mas também de detectar alterações de temperatura, analisar possíveis incidentes e emitir alertas antes que ocorra uma situação crítica, facilitando assim uma rápida intervenção dos profissionais responsáveis.

A palestra foi encerrada com uma reflexão sobre o potencial dessas inovações tecnológicas para o futuro. Bernabéu concluiu sua apresentação com uma frase que resumiu o espírito da palestra: “Este é o futuro que víamos quando éramos crianças nos filmes”.

 

Mesa redonda. ‘Riscos associados à indústria de defesa e proteção dos sistemas estratégicos globais’

A segunda mesa-redonda abordou os riscos associados à indústria de defesa e à proteção dos sistemas estratégicos globais, em um contexto internacional marcado pela crescente tensão geopolítica e pelo aumento dos gastos militares. Moderada por Antonio Salgado, diretor de Subscrição da Mapfre Global Risks, a sessão contou com a participação de Javier Bastarreche, diretor de Seguros Corporativos da Indra Sistemas; Diego de Santiago, diretor financeiro da Navantia; e Miguel Ángel García Primo, diretor-geral e CEO da Hisdesat.

Antonio Salgado abriu o debate contextualizando o momento atual, marcado por onze anos consecutivos de aumento dos gastos militares globais e por uma tendência mundial de rearmamento impulsionada pela crescente percepção de insegurança. Um cenário que, segundo destacou, coloca empresas como as representadas na mesa em uma posição estratégica para responder às novas necessidades de defesa e proteção.

Pela Navantia, Diego de Santiago ressaltou que “a guerra não beneficia ninguém”, embora tenha reconhecido que, nos últimos anos, os gastos com defesa aumentaram significativamente por dois motivos principais: a crescente percepção de ameaça e a consciência de que os Estados Unidos não manterão o mesmo nível de envolvimento na defesa europeia que mantiveram após a Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, destacou o papel estratégico da Espanha e de sua capacidade naval, com a Navantia como referência internacional em programas marítimos e defesa naval.

De Santiago explicou que a companhia está reforçando suas capacidades para responder ao aumento da demanda por meio de investimentos em inovação, instalações e processos produtivos. A combinação de tecnologias como inteligência artificial, robótica, gestão avançada de dados e gêmeos digitais está transformando o setor e permitindo o desenvolvimento de produtos cada vez mais sofisticados e eficientes.

Miguel Ángel García Primo destacou, por sua vez, a crescente relevância do espaço na defesa e na vida cotidiana. “Investir em defesa é investir em paz”, afirmou. O CEO da Hisdesat lembrou que grande parte das atividades diárias já depende de infraestruturas satelitais (da meteorologia e do GPS às telecomunicações), o que transforma a proteção dos ativos espaciais nacionais em uma questão estratégica de primeira grandeza.

Pela Indra, Javier Bastarreche destacou a necessidade de impulsionar a industrialização e a colaboração tecnológica para enfrentar as ameaças globais. A companhia trabalha no desenvolvimento de plataformas e capacidades que permitam apoiar tanto o país quanto o conjunto da indústria, aproveitando ainda a experiência tecnológica adquirida no setor civil e transferindo-a para o setor de defesa.

Quanto aos riscos enfrentados por essas empresas, os participantes concordaram em apontar a crescente complexidade do ambiente. Pela Navantia, Diego de Santiago observou que os principais riscos concentram-se no projeto dos produtos e na cadeia de suprimentos, especialmente em um contexto de incerteza estratégica global que “veio para ficar”. Também destacou a importância da cibersegurança, da inteligência artificial e da necessidade constante de inovação para manter capacidades competitivas, além do desafio de atrair e reter talentos tecnológicos especializados.

Miguel Ángel García Primo explicou que o ambiente espacial apresenta riscos especialmente complexos, tanto pelas dificuldades da cadeia de suprimentos quanto pelas próprias condições do espaço, como radiação solar, temperaturas extremas e microgravidade. Embora tenha afirmado que o setor está preparado para enfrentar esses desafios, reconheceu que eventos inesperados sempre podem surgir. Além disso, destacou que a dependência tecnológica global é um aspecto que deve ser observado no longo prazo.

Por sua vez, Javier Bastarreche alertou para o risco de obsolescência tecnológica e defendeu a necessidade de permanecer permanentemente atualizado, seja por meio de investimentos próprios ou por estratégias de crescimento e aquisição de conhecimento especializado.

A mesa também abordou o papel do setor segurador diante desses novos riscos. Pela Navantia, reconheceu-se que o seguro está respondendo às necessidades do mercado, embora ainda existam limitações diante de riscos emergentes e sistêmicos. Nesse sentido, defenderam a necessidade de trabalhar em conjunto com as seguradoras para antecipar cenários e desenvolver soluções adaptadas às novas ameaças.

García Primo destacou que o espaço continua sendo um nicho pouco conhecido dentro do mercado segurador e valorizou especialmente o acompanhamento da Mapfre como parceira estratégica. No entanto, considerou que o setor segurador continua excessivamente conservador para um ambiente que evolui com enorme rapidez e exige maior capacidade de adaptação.

Pela Indra, Bastarreche insistiu na importância da transparência e da comunicação constante com as seguradoras para que possam compreender adequadamente os riscos. Da mesma forma, defendeu a necessidade de avançar para modelos de colaboração público-privada capazes de enfrentar aqueles riscos sistêmicos que não possam ser totalmente cobertos pelo mercado segurador.

 

Pílula: ‘As Terras Raras na geoestratégia global dos recursos minerais’

A última pílula das Jornadas abordou um dos temas mais estratégicos da atualidade: o papel das terras raras na economia global, na transição energética e na geopolítica internacional. Manuel Regueiro, conselheiro técnico do Colégio Oficial de Geólogos, começou esclarecendo um equívoco frequente: as chamadas terras raras nem são terras nem são raras. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos – principalmente lantanídeos – cuja denominação remonta ao século XVIII, quando “terras” fazia referência a óxidos minerais e “raras” indicava que inicialmente pareciam escassas. Foram descobertas na Suécia e, embora hoje se saiba que não são tão incomuns no planeta, existem poucos depósitos economicamente exploráveis.

Esses elementos possuem propriedades únicas que os tornam indispensáveis para inúmeras aplicações tecnológicas e industriais. Estão presentes em telefones celulares, veículos elétricos e, especialmente, em ímãs permanentes de alto desempenho, que representam a maior parte do mercado mundial de terras raras e são fundamentais para a fabricação de motores elétricos e tecnologias associadas à transição energética.

Um dos aspectos mais relevantes da palestra foi a explicação da cadeia global de suprimentos. Embora existam recursos minerais em diversos países, incluindo Europa e Espanha, a China domina o setor. Além de possuir importantes jazidas, controla o refino, o processamento e a fabricação de produtos derivados. Atualmente, produz cerca de 94% dos ímãs permanentes do mundo.

A China, consciente tanto de sua vantagem estratégica quanto do forte impacto ambiental associado à mineração e ao processamento de terras raras, reforçou o controle estatal sobre esses recursos. Além de explorar suas próprias jazidas, o país desenvolveu uma política internacional de investimentos em mineração, infraestrutura, portos e energia, “colonizando” diversos países e cadeias de suprimentos.

Enquanto os Estados Unidos tentam há anos reduzir sua dependência, o especialista explicou que a Europa apenas agora começa a buscar soluções, reagindo com iniciativas como o Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas e estratégias de abastecimento, embora continue mantendo uma elevada dependência da China.

No caso da Espanha, o cenário não é animador. Embora o território possua recursos minerais potenciais, o país atualmente não dispõe de produção significativa de terras raras nem de capacidade de refino ou transformação industrial.

A palestra concluiu apontando os principais desafios globais associados às terras raras e a outros minerais críticos: a concentração da produção em pouquíssimos países, especialmente na China; o forte impacto ambiental e sobre a biodiversidade da atividade mineradora; e as limitações atuais da economia circular e da reciclagem, cuja efetividade mal alcança 20%.

Como ideia final, Regueiro fez uma afirmação contundente: “é impossível alcançar autonomia em minerais críticos sem fazer buracos no solo”.

 

Palestra magna, prêmio de excelência e encerramento

A etapa final da noite, que nos aproxima do encerramento destas apaixonantes Jornadas Internacionais, começou com a palestra magna ministrada por Pedro Baños, coronel e analista geopolítico. Nela, abordou o panorama geopolítico atual, com a China como principal protagonista e as demais superpotências seguindo sua trajetória em praticamente todos os mercados estratégicos. Essa disputa de poder resultou em mudanças de estratégia, em que o “plano econômico-financeiro é a grande batalha dos nossos dias”, enquanto a hegemonia do dólar, ainda principal moeda de reserva mundial, encontra-se à mercê de uma nova ordem geopolítica e econômica. De forma brilhante, Baños analisou possíveis cenários, realidades e os movimentos mais recentes de cada uma das potências, bem como sua evolução histórica. Desfez mitos consolidados, lançou luz sobre diversas incógnitas e advertiu que a melhor forma de alcançar a paz é manter a paz, e não colocar em risco ou subordinar – algo que, segundo ele, está acontecendo – o estado de bem-estar social. “Nem tudo pode ser resolvido pela força das armas”, concluiu o militar.

Em seguida, como já é tradição, Bosco Francoy, CEO da Mapfre Global Risks, apresentou suas conclusões sobre os diversos temas abordados durante as Jornadas Internacionais em forma de resumo e passou a palavra a Eduardo Pérez de Lema, presidente da companhia, que subiu ao palco uma última vez para entregar o V Prêmio de Excelência em Gestão de Riscos à: Progreso, empresa líder de origem guatemalteca em materiais e soluções para a construção, fundada em 1899 por Carlos Federico Novella Kleé e que atualmente opera em 8 países da América Latina. Stephanie Melville Molina, diretora de seu Conselho de Administração, recebeu a premiação.

O encerramento das Jornadas ficou a cargo de Antonio Huertas, presidente da Mapfre, que agradeceu a presença de tantas pessoas que desfrutaram, e aproveitaram ao máximo, cada momento deste evento com o objetivo de debater todas as formas de apoiar o tecido empresarial e, assim, melhorar a vida da sociedade, além de demonstrar especial emoção pela escolha de sua terra natal, a Extremadura, como local do encontro. Como representante da região, o evento contou com a presença de María Guardiola, presidente da Junta da Extremadura, que também agradeceu o fato de Cáceres ter sido sede desta importante reunião setorial e destacou o papel do seguro em um setor tão complexo e delicado quanto o dos Riscos Globais.

Muito em breve, em nossa revista Gestão de Riscos e Seguros, você poderá ler um resumo mais amplo de todas as mesas-redondas e palestras das Jornadas. Fique atento!

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