28/05/2026
Quinta-feira, 28 de maio
Eduardo Pérez de Lema, presidente da Mapfre Global Risks, deu as boas-vindas mais uma vez aos participantes das Jornadas, que celebraram sua 30ª edição na cidade de Cáceres. O encontro reuniu centenas de profissionais do setor em torno de um programa de grande relevância, centrado nos principais desafios e oportunidades da indústria.
Durante sua apresentação, destacou o atual contexto de incerteza geopolítica, transformação tecnológica e mudanças sociais, ressaltando o papel do setor segurador como elemento fundamental para proporcionar estabilidade e soluções. Também enfatizou a solidez e o crescimento sustentado da Mapfre, que encerrou 2025 com resultados recordes. Além disso, alertou que o investimento da companhia em tecnologia é necessário, mas deve ser apoiado por uma inteligência artificial “humanista”, concebida como ferramenta a serviço das pessoas.
Por sua vez, Bosco Francoy, CEO da companhia, defendeu o valor do seguro como elemento essencial para garantir o crescimento, a resiliência e a continuidade das empresas em ambientes complexos, afirmando que “o risco não é aquilo que se gerencia; é aquilo que determina até onde se pode crescer”. Sob essa visão de longo prazo, alinhada ao lema das Jornadas, destacou a importância de construir relações sólidas e sustentáveis, além de valorizar o papel da prevenção, da engenharia e do critério técnico da Mapfre.
Essa apresentação abriu espaço para Juan Francés, diretor corporativo de Marca e Reputação da Mapfre, que apresentou o rebranding da Mapfre e da Mapfre Global Risks, uma evolução da marca alinhada à transformação estratégica e organizacional vivenciada pelo grupo nos últimos anos. Durante a sessão, destacou como essa nova identidade reforça o posicionamento da companhia como uma parceira próxima, sólida e global para clientes e stakeholders.
Um contexto geopolítico complexo
Mais uma vez, José Luis Jiménez, CFO da Mapfre, foi responsável por uma das palestras mais relevantes das Jornadas, apresentando uma análise do contexto econômico e geopolítico internacional e oferecendo elementos para compreender muitos dos desafios que marcarão a agenda empresarial e seguradora nos próximos anos. Durante sua participação, analisou especialmente a situação atual do Oriente Médio sob uma perspectiva histórica, lembrando que mais de 80% dos conflitos armados “têm uma razão econômica por trás”, e ressaltou que as tensões internacionais afetam diretamente as cadeias de suprimentos, impactando a energia, o comércio e a estabilidade financeira global.
Jiménez também abordou a incerteza econômica e comercial, o crescimento da dívida pública e o impacto dos conflitos armados sobre o crescimento mundial, muito superior ao provocado pelas grandes catástrofes naturais. Embora sua exposição tenha tratado das atuais tensões internacionais e das possíveis consequências da crescente fragmentação global, encerrou sua palestra com uma mensagem inspirada em Keynes, apelando para a capacidade de adaptação e progresso das sociedades: “se somos capazes de imaginar o futuro, podemos criá-lo.” Lembrou ainda que, nos últimos cem anos, a renda real multiplicou-se por sete, a mortalidade infantil caiu de 34% para 4% e a alfabetização aumentou de 32% para 90%. Com isso, transmitiu uma mensagem final de confiança no progresso e, sobretudo, no futuro.
Mesa redonda. Segurança e ciber-riscos: Como gerenciar e segurar o risco invisível?
O primeiro encontro da jornada foi moderado por Julien San Quirce, Responsabilidade Civil da Mapfre Global Risks, e contou com a participação de Macarena Bandrés, responsável pela Gestão de Riscos Cibernéticos da Mars, Ignacio del Corral, diretor global de Riscos Corporativos do Grupo Santander, e Daniel Largacha, diretor de Cibersegurança da Mapfre.
Como foi destacado no início do debate, o risco global já não pode ser entendido apenas como uma ameaça física, mas também digital, com impacto imediato sobre empresas, mercados e sistemas financeiros. Nesse contexto, ressaltou-se que “o problema não começa na tecnologia; o problema começa nas pessoas”, já que o cibercrime aperfeiçoou sua capacidade de explorar o fator humano por meio de modelos como phishing e ransomware, com consequências diretas na forma de perdas econômicas, interrupções operacionais ou danos reputacionais.
A situação não é simples: como reconhece Largacha, é “impossível ter um mapa perfeito e completo desses riscos”, já que a tecnologia opera em um plano diferente do mundo físico, é volátil e, além disso, suas ameaças evoluem constantemente. Del Corral destacou a importância da transversalidade do impacto do ciber-risco, que obriga o envolvimento de todas as áreas da companhia por meio da construção de cenários que permitam antecipar o efeito potencial de um incidente em diferentes dimensões do negócio. Nessa mesma linha, ressaltou a dificuldade de quantificar os danos, que podem variar desde lucros cessantes até sanções significativas.
Por sua vez, Bandres destacou o papel do corretor como figura-chave para conectar o conhecimento do cliente ao mercado segurador, ajudando a desenhar soluções adaptadas à realidade de cada organização. Em conjunto, a mesa destacou que gerenciar o risco cibernético já não é apenas uma questão tecnológica, mas uma questão estratégica.
Mesa redonda: “Situação macro do Resseguro”
A conversa seguinte foi moderada por José López González, subdiretor-geral de Negócios da Mapfre Re, acompanhado por Bryan Dalton, vice-presidente sênior e diretor de Subscrição – Property da Rennaisance Re, Tim Jehnichen, presidente executivo da Munich Re, e Pablo Muñoz, CEO Global FAC da Gallaguer Re.
Todos os profissionais reunidos nesta conversa concordaram que o Resseguro, neste contexto de incerteza, deve concentrar seu valor na permanência dos clientes. “Não buscamos um crescimento geral, mas acompanhar os clientes no longo prazo e diversificar”, afirmou Jehnichen. Por sua vez, Dalton considera que o mercado está agora mais competitivo e que é essencial proteger os investidores, mantendo tanto a eficiência quanto a competitividade. Também na Gallaguer Re apostam na diversificação e em continuar crescendo em um mercado que não é estático, tanto em produtos quanto em geografias. Da Munich Re, o alerta foi: “é preciso permanecer atento, mas não podemos ficar paralisados”.
Pablo Muñoz, por sua vez, considera importante a colaboração público-privada, entendendo que o mercado “não pode dar solução para todos os problemas” e que, nesse contexto, o setor segurador só pode excluir riscos, reduzir a incerteza e trazer certa clareza. Dalton acrescentou: “é preciso ter paciência e entender em que ponto do ciclo estamos; o risco precisa funcionar nos dois sentidos”, afirmou. Antes de encerrar a conversa, Jehnichen lembrou que “a confiança é conquistada com coerência e consistência. Quando surgem problemas, é nesse momento que você é visto como um aliado estratégico”, concluiu.
Pílula: “Data Centers: motor da nova economia digital”
Iván Delgado de Robles, gerente de Riscos, Serviços e Concessões da ACS, explicou durante sua apresentação como evoluiu a aposta da companhia nos centros de dados, impulsionada especialmente pelo crescimento da inteligência artificial e pela forte demanda por infraestruturas digitais. Como destacou, esse interesse do grupo não é recente: A ACS constrói data centers há anos por meio de subsidiárias nos Estados Unidos e em outros países, embora inicialmente estivesse focada apenas na fase de construção. A grande mudança ocorreu em 2023-2024, quando o avanço da IA acelerou a decisão de criar uma unidade de negócios específica para cobrir todo o ciclo do data center: projeto, construção, operação e manutenção.
Para incorporar esse modelo, a ACS contou com parceiros como a BlackRock, que se destaca por seu forte posicionamento internacional. Juntos, ampliaram sua presença global apoiados em diversas linhas de negócios: soluções integradas, infraestruturas e concessões, além de engenharia e construção (esta última liderada pela Turner nos Estados Unidos e pela Dragados na Europa). Na área de data centers, a Turner desempenha um papel fundamental como líder global na construção dessas infraestruturas, especialmente para grandes operadores hiperescaláveis.r seus crescentes riscos operacionais, tecnológicos e energéticos”. Em sua conclusão, Delgado afirmou que “os centros de dados, cada vez maiores e com consumos de centenas de MW e até GW, exigirão uma capacidade seguradora maior para cobrir seus crescentes riscos operacionais, tecnológicos e energéticos”.
Talk: “Corredores marítimos e logísticos: o papel das infraestruturas críticas”
Esta conversa entre Alev Sümer, adjunta da Direção de Subscrição da Mapfre Global Risks, e Hakam Kayganaci, CRO da CoreX Holding, girou em torno de como a geopolítica, a disrupção das cadeias de suprimentos, os ciber-riscos e as mudanças climáticas estão redefinindo a gestão de riscos em infraestruturas críticas, especialmente em setores como portos, logística, energia e mineração.
Kayganaci explicou que o ambiente atual é cada vez mais volátil e menos previsível, em que eventos como os recentes conflitos no Oriente Médio refletem que o risco já não é pontual, mas sistêmico, e que as empresas precisam se acostumar a gerenciar o risco desde o início dos investimentos, integrando-o à estratégia do negócio.
Um dos temas novamente abordados nesse contexto foi a necessidade de diversificação e resiliência, tanto geográfica quanto de ativos físicos. Também destacou que os seguros tradicionais são úteis para riscos pontuais, mas menos eficazes diante de mudanças geopolíticas e regulatórias prolongadas.
As mudanças climáticas foram tratadas como um fator já incorporado às decisões de investimento, não apenas por seus impactos físicos, mas também porque condicionam o financiamento e o desenho de qualquer infraestrutura crítica. Para concluir, o executivo da CoreX insistiu que a resiliência se tornou a nova moeda de troca, sobretudo em um ambiente onde os riscos estão interligados e a capacidade de adaptação e continuidade dos negócios é mais importante do que a simples eficiência.
Mesa redonda: “Cativas Europeias e Programas Internacionais”
A última conversa da jornada trouxe novamente Bosco Francoy ao palco, desta vez ao lado de François Beaume, vice-presidente de Riscos e Seguros da AMRAE, Luis Lancha, presidente da AGERS, e Laurent Nihoul, CEO da FERMA. Durante a mesa-redonda, foi abordado o crescimento das cativas na Europa e seu papel cada vez mais relevante na gestão do risco global. Os participantes concordaram que o endurecimento do mercado segurador nos últimos anos impulsionou sua utilização, especialmente entre grandes multinacionais, mas cada vez mais também em empresas menores.
As cativas deixaram de ser uma ferramenta de nicho, concentrada em 80% na Irlanda e em Luxemburgo, para se tornarem um elemento estrutural de gestão financeira que já pode ser encontrado em outros países. A França representa um caso de sucesso graças à sua reforma de 7 de junho de 2023, quando conferiu legitimidade ao mercado de cativas, permitindo que seu número passasse de 6 para 28. Além disso, o país criou uma federação de cativas para gerar um ecossistema capaz de atuar no longo prazo e continuar crescendo.
A Espanha, por sua vez, encontra-se em um momento de transição regulatória fundamental, vinculado à transposição da diretiva europeia de 2025, embora seu sucesso dependa da proporcionalidade regulatória, da clareza do marco fiscal e do desenvolvimento de um ecossistema sólido. Por fim, a mesa destacou a transformação do papel do gestor de riscos, que deve evoluir para uma função mais estratégica e transversal. Já não se trata apenas de medir riscos, mas de influenciar decisões empresariais, falar a linguagem do negócio e atuar como tradutor entre exposição e estratégia. Ou seja, passar de um papel tático para um papel estratégico e financeiro.
Pílula: “O futuro da saúde nas empresas em um mundo powered by AI”
A última palestra da jornada abordou o impacto tecnológico na área da saúde, especialmente o da IA no ambiente profissional. Pedro Díaz Yuste, da Savia (iniciativa de Saúde Digital da Mapfre), destacou que a IA já está transformando o setor da saúde e relembrou as declarações de Demis Hassabis, CEO da DeepMind e vencedor do Prêmio Nobel de Química, segundo as quais essa tecnologia pode revolucionar a pesquisa médica e acelerar a cura de doenças.
No âmbito corporativo, ressaltou que as empresas enfrentam importantes desafios relacionados ao bem-estar de seus colaboradores, ao aumento dos problemas de saúde mental, ao absenteísmo e aos afastamentos do trabalho. Nesse contexto, Díaz Yuste explicou que existem quatro grandes áreas nas quais a IA pode agregar valor: a prevenção e detecção precoce de doenças, a orientação e triagem digital, a personalização de recomendações médicas e o desenvolvimento de terapias apoiadas por inteligência artificial. Esses avanços já são realidade em áreas da saúde privada.
Por fim, o palestrante explicou como a Mapfre está incorporando essas soluções tanto em seu negócio de seguros de saúde quanto por meio da Savia, sua plataforma de serviços de saúde digital, com o objetivo de oferecer uma assistência mais acessível, preventiva e personalizada.



