25/08/2026
A ordem geopolítica global está em plena transformação. A rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China, a batalha pela liderança tecnológica e a fragmentação do sistema financeiro internacional estão dando lugar a um cenário de incerteza.
Para abordá-lo, Pedro Banhos, coronel e analista geopolítico, ofereceu uma palestra magistral durante a celebração das XXX Jornadas Internacionais da Mapfre Global Risks, onde analisou as chaves do novo equilíbrio mundial, os movimentos estratégicos das principais potências e os riscos decorrentes dessa realidade.
Para Baños, compreender o momento atual exige olhar além dos conflitos concretos. “Não estamos em uma época de mudanças, mas em uma mudança de época absoluta”, alertou, apontando que o mundo avança para uma nova configuração na qual a China desempenhará um papel central.
China e a liderança internacional
Durante sua palestra, Baños traçou uma comparação reveladora: ao contrário da União Soviética durante a Guerra Fria, cuja rivalidade com os Estados Unidos foi principalmente ideológica e estratégica, a China compete hoje em todas as frentes: econômica, comercial, tecnológica, financeira e militar. A tecnologia é uma das frentes mais importantes. O desenvolvimento de microchips avançados, a inteligência artificial, a computação quântica, a robótica ou a corrida espacial tornaram-se elementos essenciais da competição entre potências, nos quais o gigante asiático reduziu a vantagem histórica do Ocidente em setores estratégicos. “Tudo o que estamos vivendo está relacionado com isso”, afirmou.
“Até não faz muitos anos, o principal exportador para a maioria dos países do mundo eram os Estados Unidos. Porque a história demonstra que quem tem a melhor tecnologia e, além disso, consegue vender mais barato do que os demais, vai dominando os mercados. Mas é que, em pouco mais de vinte anos, atualmente o principal exportador para a maioria dos países do mundo é a China”, asseverou. Nesse contexto, ressaltou a importância da autossuficiência tecnológica e do controle das cadeias de suprimentos, especialmente em setores críticos como os semicondutores e as matérias-primas estratégicas.
A batalha tecnológica e financeira
Além do âmbito militar, o especialista apontou que o grande confronto atual se desenvolve no campo econômico e financeiro. “Essa é a grande batalha dos nossos dias”, afirmou. O analista explicou que a hegemonia do dólar foi durante décadas uma das principais armas norte-americanas. “O planeta inteiro ansiava por ter dólares, seja como principal moeda de reserva ou em títulos do Tesouro. Isso está acabando”, alertou.
O avanço de novos atores e a busca por alternativas à atual ordem econômica estão impulsionando uma transformação progressiva. A redução da dependência do dólar, o crescimento dos BRICS (grupo de economias emergentes formado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, ao qual novos membros se incorporaram nos últimos anos com o objetivo de reforçar sua influência na governança global e diversificar as relações econômicas internacionais) e o surgimento de novos mecanismos comerciais fazem parte de uma reconfiguração do sistema internacional. Em resumo, segundo o especialista, “a geopolítica é a expressão concentrada da geoeconomia”.
Outro dos eixos abordados durante a palestra foi a importância dos recursos estratégicos. As terras raras, tal como Manuel Regueiro, expôs durante sua palestra no mesmo evento, o tungstênio e determinados minerais críticos tornaram-se peças fundamentais da indústria tecnológica e de defesa, e, portanto, da geoestratégia mundial. Baños falou da inegável dependência ocidental em relação à China nesse âmbito, e explicou que o controle desses recursos faz parte de uma nova disputa global.
O especialista também enfatizou o fato de que a luta tecnológica não se limita à posse de recursos e à fabricação de produtos, mas passa também pelo domínio do conhecimento e da inovação. A capacidade de desenvolver novas tecnologias determinará, provavelmente, quais países terão maior influência sobre os demais no futuro.
Conflitos indiretos entre grandes potências
Para contextualizar essa conjuntura internacional, é imprescindível analisar os principais cenários internacionais, como a Ucrânia ou as tensões do Oriente Médio, que explicam de forma mais ampla o confronto das grandes potências. Segundo o coronel Baños, muitos desses conflitos não podem ser entendidos apenas de uma perspectiva local, mas como cenários onde colidem interesses estratégicos globais.
Durante sua intervenção, também refletiu sobre a posição da Europa nesse contexto. O aumento dos gastos em defesa, a busca por autonomia estratégica e o debate sobre o equilíbrio entre segurança e bem-estar marcam a agenda internacional, e provavelmente o farão nos próximos anos. No entanto, o analista também alertou sobre os riscos de uma dinâmica excessivamente centrada no rearmamento, e defendeu que a segurança deve ser abordada de uma perspectiva mais ampla. “Sou militar, e quero que meu país tenha o melhor exército possível, mas isso não significa ser militarista”, explicou. Nesse sentido, lembrou que a estabilidade internacional não depende apenas da capacidade armamentística, mas também da diplomacia, da cooperação e da prevenção.
A paz como objetivo
“Custou muito conquistarmos um Estado de Bem-Estar, e estamos entrando em uma voragem belicista e armamentística em todo o mundo”, alertou Pedro Baños na parte final de sua palestra. Como conclusão, o militar apelou à necessidade de interpretar corretamente o momento histórico atual e evitar respostas simplistas diante de problemas complexos. “A melhor maneira de preparar a paz é com a paz”, continuou defendendo. O objetivo deve ser preservar a estabilidade e evitar uma escalada que possa colocar em risco os avanços econômicos e sociais alcançados. Encerrou sua intervenção com um apelo à prudência e a não fazer da força militar a primeira resposta. “Que continuemos tendo um país em paz e em prosperidade”, concluiu.
Se você quer ouvir a palestra magistral completa, pode acessar sua gravação através do nosso site.



