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Cativas europeias e Programas Internacionais

12/08/2026

As cativas vivem um novo impulso na Europa e consolidam seu papel como ferramenta estratégica para o financiamento do risco. Seu crescimento, aliado às mudanças regulatórias e à evolução do mercado segurador, está transformando a gestão de grandes riscos.

Esse avanço está ocorrendo em um contexto marcado pela incerteza geopolítica, o que também aumenta a complexidade dos riscos. As cativas já não são um instrumento reservado às grandes multinacionais: são um elemento central dos programas internacionais de seguros e da resiliência corporativa. Com o objetivo de analisar essa evolução, as XXX Jornadas Internacionais da Mapfre Global Risks reuniram em uma mesa moderada por Bosco Francoy (CEO da empresa) a François Beaume, vice-presidente de Riscos e Seguros da AMRAE, Luis Lancha, presidente da AGERS, e Laurent Nihoul, CEO da FERMA.

 

Um novo ciclo para as cativas

Bosco Francoy abriu a sessão lembrando que a Europa atravessa um momento de mudança após vários anos de endurecimento do mercado segurador, com aumento de prêmios, redução de capacidade e maiores restrições nas coberturas. “Cada vez mais empresas europeias estão criando ou reforçando suas próprias seguradoras cativas, embora o número de cativas na região ainda seja moderado. No entanto, o ecossistema é sólido e continua crescendo”, afirmou. Laurent Nihoul acrescentou que esse crescimento não responde apenas ao aumento do número de entidades, mas também ao aumento do volume de prêmios que as cativas já existentes canalizam. Em sua opinião, trata-se de uma evolução lógica. “Quando o mercado endurece, as cativas se tornam mais atrativas”, explicou.

O CEO da Ferma destacou, além disso, que essa tendência já não afeta apenas as grandes multinacionais. Cada vez mais empresas de médio porte avaliam a possibilidade de criar uma cativa, o que está impulsionando o desenvolvimento de novos marcos regulatórios nacionais. França, Espanha e Reino Unido debatem atualmente sobre os domicílios para essas cativas. “Parece-me uma evolução muito interessante porque, afinal, na Europa existe a livre prestação de serviços. Então a pergunta é: por que precisar de uma cativa em seu próprio país se você pode estabelecê-la em Luxemburgo, Irlanda, Suécia, Malta ou em qualquer outro Estado-membro? Acredito que a resposta está precisamente nas PMEs. Se você é uma empresa espanhola, provavelmente prefere poder fazer isso aqui”, afirma. Nihoul lembrou também que o sucesso desses novos mercados dependerá de quatro fatores: definir claramente o objetivo do modelo, desenhar um marco técnico e fiscal competitivo, aplicar a regulamentação com critérios de proporcionalidade e desenvolver um ecossistema profissional especializado capaz de dar suporte às cativas.

 

França, exemplo de transformação regulatória

Um dos principais focos da conversa foi a experiência francesa após a reforma aprovada em 2023. François Beaume lembrou que durante décadas a França mal havia autorizado novas cativas, o que obrigava as empresas a estabelecê-las em outros países europeus. A situação mudou após a pandemia, quando o governo começou a analisar novas fórmulas para reforçar a resiliência financeira do tecido empresarial.

A reforma introduziu a denominada provisão para a resiliência, um mecanismo que permite às cativas gerir determinadas reservas com uma visão de longo prazo e que, segundo Beaume, representou uma autêntica mudança de paradigma. “Desde então passamos de seis para vinte e oito cativas autorizadas. Só este ano o supervisor concedeu três novas licenças e tem capacidade para autorizar aproximadamente cinco cativas por ano”, assegura. O perfil das empresas também está mudando. “Cada vez recebemos mais solicitações de empresas de médio porte que antes nem sequer consideravam essa possibilidade”, explicou. O próximo desafio, acrescentou, consiste em consolidar um verdadeiro ecossistema de profissionais especializados que acompanhe o crescimento do mercado.

 

Novas oportunidades estratégicas

A Espanha vive um momento decisivo graças ao processo de transposição da nova Diretiva europeia, uma oportunidade que, na opinião de Luis Lancha, pode posicionar o país como um novo centro para o desenvolvimento de cativas. O presidente da AGERS destacou especialmente o diálogo que se abriu entre o supervisor e os gestores de riscos por meio de diferentes órgãos consultivos, o que permite incorporar a experiência empresarial ao desenvolvimento do futuro marco regulatório. Para Lancha, o sucesso dependerá de como se aplicar o princípio de proporcionalidade e do tratamento que receberem as entidades pequenas e não complexas. Se ambos os elementos encontrarem o equilíbrio adequado, a Espanha poderia construir um ecossistema competitivo não apenas para empresas nacionais, mas também para se tornar uma ponte entre a Europa e a América Latina.

Nesse ponto os especialistas abordaram também a evolução dos programas internacionais de seguros. François Beaume defendeu que as cativas deixaram de ser um complemento para se tornarem o núcleo da arquitetura seguradora das grandes empresas. “Já não são um acessório”, resumiu. Embora considere que os programas globais continuam sendo uma ferramenta eficiente, o contexto atual, marcado pela fragmentação regulatória, as tensões geopolíticas e os problemas de segurabilidade, obriga a revisar continuamente seu design. “A questão é determinar quanto risco a empresa deve reter e qual é a melhor forma de financiá-lo”, alertou.

Laurent Nihoul acrescentou que essa evolução também está impulsionando novas formas de utilizar as cativas. “Tradicionalmente o processo era o seguinte: a empresa recorria ao mercado segurador, contratava a cobertura disponível e, posteriormente, analisava qual parte do risco poderia reter por meio de sua cativa”, expôs. Agora a tendência é a estratégia captive first, que consiste em analisar primeiro quais riscos a cativa pode assumir antes de recorrer ao mercado segurador para transferir apenas o excesso de exposição.

 

O papel do gestor de riscos

A última parte da mesa se concentrou na transformação da função do gestor de riscos. Luis Lancha defendeu que a profissão está evoluindo de um perfil eminentemente técnico para uma função estratégica muito mais vinculada ao negócio. Laurent Nihoul acrescentou que “se nenhuma decisão muda graças à análise de riscos, provavelmente não estamos fazendo gestão do risco; estamos fazendo documentação”.

Por sua vez, François Beaume definiu o gestor de riscos como um tradutor entre a exposição ao risco e a tomada de decisões. Sua missão já não consiste apenas em identificar ameaças, mas em influir nas decisões do negócio, compreender as prioridades de cada área e ajudar a construir organizações mais resilientes. “Convém sermos humildes: nós, gestores de riscos tomamos algumas decisões, mas a imensa maioria cabe a outros responsáveis da organização. Por isso devemos intervir muito antes, a montante do processo de decisão. Para isso, é preciso se conectar com as pessoas, aprender sua linguagem e compreender seu negócio”, concluiu.

Se você quer conhecer todas as reflexões sobre a evolução das cativas na Europa e o futuro da gestão do risco, não perca a mesa-redonda “Cativas Europeias e Programas Internacionais”.

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