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U-Space: contexto de garantia para os drones

Embora ainda não tenham se transformado em um elemento do nosso cotidiano, os drones estão cada vez mais para perto de conviver em harmonia com a aviação tradicional. Uma das escalas desta evolução chama-se U-Space, um conjunto de serviços, tecnologias e procedimentos que darão lugar a um espaço aéreo renovado. Enrique Ventas, responsável por I+D da Divisão UAS do Instituto Tecnológico de Galiza (ITG [Instituto Tecnológico de Galicia]), que gerencia um dos centros de testes especializados nesse assunto, nos fala sobre isso.

Os números projetados para as próximas décadas são incontestáveis: a União Europeia estima que em 2050 haverá mais de 7 milhões de drones voando na Europa. O uso e sua indústria crescem exponencialmente e ainda estão bem longe de atingir todo o seu potencial. No entanto, como aponta Enrique Ventas, responsável por I+D da Divisão UAS do Instituto Tecnológico de Galiza (ITG), não está ocorrendo um desenvolvimento integral, já que a maior parte da atividade acontece em certos setores como o audiovisual, inspeções ou em emergências, e outros ainda estão em formação. “Neste último grupo poderíamos incluir os serviços de entrega de última milha ou os voos autónomos, sem esquecer do transporte de passageiros ou de mercadorias entre cidades, para o qual faltam vários anos”, afirma.

 Como passo fundamental na hierarquia de seu roadmap, os profissionais do setor confiam no U-Space, que pode ser entendido como uma evolução do tráfego aéreo tradicional e que compila “um conjunto de serviços, tecnologias e procedimentos que permitirão o controle de acesso de drones ao espaço aéreo, para torná-lo seguro, organizado e eficiente; ou seja, para facilitar muitos voos coincidentes no mesmo espaço e a convivência de todos os tipos de aeronaves, tripuladas ou não”. Para que essa convivência harmoniosa aconteça, é necessário determinar a extensão e que haja pelo menos um prestador de serviço U-Space de acordo com os regulamentos, “que facilite a identificação da rede, autorização de voo, geoconhecimento e informações de tráfico”. Também será necessário um ponto de informação comum, que seja referência de autoridades, provedores e operadores.

 Além disso, e como aponta o engenheiro aeronáutico, espera-se que no futuro “haja muitos outros serviços em execução, como informações meteorológicas, gestão tática de conflitos e medição da qualidade dos sinais de comunicação ou monitoramento das operações”. Este ecossistema poderia abrigar quase qualquer tipo de operação, desde as mais simples até as mais complexas, com o “horizonte final no transporte de passageiros”.

 

    Necessidade de automação

    As tecnologias mais importantes na estruturação deste espaço serão aquelas que conduzam a uma maior digitalização e que permitam automatizar os serviços. Segundo o especialista da ITG, “a gestão da navegação aérea convencional, conhecida como ATM, cujo elemento mais distintivo é o controlador, não é muito automatizada e ainda tem um componente analógico”, algo inviável no alvoroço que se prevê no U-Space. Por esse motivo, é necessário “avançar rumo a um gerenciamento automatizado deste tráfico, com alto componente de Inteligência Artificial e sistemas que obtenham um posicionamento preciso em tempo real e uma comunicação totalmente digital, e o uso de tecnologias Cloud e similares para a escalabilidade dos serviços que intervêm em milhares de operações simultâneas”.

     Do ITG, apontam para a implantação desses espaços a superação de cinco grandes desafios:

     

    • Entendimento – com procedimentos comuns e acordados – entre a aviação tripulada e não tripulada, para facilitar a convivência no mesmo espaço aéreo.
    • A concretização de um maior nível de automação, que permitirá gerenciar um número crescente de drones de forma segura.
    • Infraestrutura em terra que permita a comunicação, navegação e vigilância (CNS), facilitando assim a operação dos veículos aéreos e um posicionamento preciso deles.
    • Desenvolvimento do marco regulatório e das normas e meios de cumprimento que permitam definir os processos e requisitos para certificar as diferentes tecnologias que serão implantadas posteriormente.
    • A aceitação pública, que implica, por sua vez, a superação de outros muitos desafios, como o ruído, o benefício dos casos de uso, privacidade etc.

    A implantação do U-Space também teria efeitos positivos na região. O primeiro, e mais evidente, é o crescimento da indústria de UAS e a criação de empresas operadoras. “Os drones não devem ser vistos como um meio que venham a substituir o que já temos”, explica Enrique Ventas, “mas como um complemento que vai reforçar e ampliar os benefícios de determinadas operações”. A este impulso setorial, que fomentaria novos modelos de negócio e crescimento econômico, somam-se as vantagens diretas para o cidadão, que teria novas ferramentas logísticas ao seu alcance. Todos os casos de uso já estão em teste, e alguns podem ser vistos em Santiago de Compostela em setembro de 2022, onde o ITG coordenará os testes de voo do projeto europeu AMU-LED.

     Outro benefício previsto é a redução de emissões graças às atividades realizadas por drones de propulsão elétrica, que pressupõem maior eficiência.

       

      Desafios de implantação

      Embora em abril de 2021 tenha sido aprovado um quadro normativo básico para o meio ambiente que abriga um U-Space, no qual se definem as principais atividades e responsabilidades dos participantes, segundo o especialista, ainda falta uma regulamentação adequada para certificar aeronaves ou serviços, bem como uma base para o desenvolvimento de vertiportos ou as especificações mínimas de infraestruturas do CNS. “Para isso, os testes em centros de ensaio como o nosso são indispensáveis, já que alimentam com dados quantitativos os futuros desenvolvimentos regulatórios”, explica.

       Como nos assegura o ITG, para que a evolução rumo a um ecossistema U-Space seja bem sucedida, é necessário cumprir todos os prazos institucionais, de risco e técnicos exigidos. “Mesmo quando já se considerar a tecnologia amadurecida, será indispensável realizar testes específicos. Como em outras áreas, o número de horas de operação é vital para coletar dados e tirar conclusões, daí a importância de fazer tudo passo a passo na implantação”.

       Com respeito ao roadmap de uma implantação bem sucedida desses espaços e dos prazos previstos, Enrique Ventas mostra-se cauteloso. “O ecossistema crescerá de forma paulatina, e não da noite para o dia como às vezes se dá a entender”. O próximo marco do calendário ocorrerá em janeiro de 2023, quando a regulamentação europeia entrará em vigor e as primeiras implantações começarão a ser feitas. Até então, os esforços do setor concentram-se em adequar a tecnologia, preparar os provedores de sistemas e definir os volumes do espaço aéreo. Em paralelo, continua-se trabalhando para atualizar e ampliar o marco regulatório e permitir a médio prazo que possam conviver e operar aeronaves e serviços U-Space mais complexos. “Espera-se que em 2024 ou 2025 tenhamos a seguinte evolução e, quem sabe, os primeiros táxis aéreos certificados e em operação em cidades europeias. Independentemente dessa data, no ritmo em que cresce a indústria e se desenvolve a tecnologia, fazer uma previsão torna-se bastante complexo”, conclui.

         

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