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A mineração como vínculo estratégico: Canadá e América Latina

09/04/2026

A mineração se consolida como um eixo estratégico na economia global em um contexto de crescente demanda por minerais críticos e reconfiguração das cadeias de suprimento. Este artigo analisa as sinergias e desafios na cooperação entre América Latina e Canadá.

A transição energética e a digitalização estão redefinindo a indústria, que avança em um cenário de crescente competição geopolítica para assegurar cadeias de suprimento seguras e sustentáveis. Nesse contexto, a América Latina se destaca por sua abundância de recursos, enquanto o Canadá contribui com capital, tecnologia e marcos regulatórios avançados. Essa relação ocorre em um momento em que os países produtores buscam superar um modelo meramente extrativista e fortalecer suas capacidades locais. Este propósito se refletiu, por exemplo, na Reunião Intersessão 2026 da Conferência de Ministérios de Mineração das Américas (CAMMA), realizada em Toronto, Canadá, onde foi aprovado um Plano de Ação Bienal orientado a impulsionar a cooperação regional e o desenvolvimento de capacidades.

Neste artigo, José Manuel Salazar-Xirinachs, secretário executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), aborda os desafios e oportunidades desta aliança estratégica.

 

Um vínculo fundamental da mineração global

“América Latina e o Caribe, junto com o Canadá, formam um eixo essencial na mineração mundial devido à magnitude e diversidade de seus recursos minerais, bem como às capacidades desenvolvidas para sua exploração e aproveitamento”, afirma o secretário executivo da CEPAL.

Os números confirmam essa afirmação. A região latino-americana abriga cerca da metade das reservas mundiais de lítio, componente-chave para a transição energética, veículos elétricos e dispositivos portáteis, e aproximadamente um terço das reservas globais de cobre, prata e molibdênio. A isso se somam proporções relevantes de outros recursos estratégicos como grafite, níquel e terras raras, fundamentais para setores como energias renováveis, eletrônica e defesa.

Vários países latino-americanos, como Brasil, Chile, México e Peru, estão entre os principais produtores mundiais, graças a uma tradição mineradora consolidada que remonta às origens de suas economias modernas.

O Canadá reforça essa posição com uma sólida base institucional, tecnológica e financeira. “Essa combinação de abundância geológica, experiência acumulada e marcos institucionais consolidados explica sua posição estratégica na mineração global”, resume Salazar-Xirinachs. Além de contar com recursos próprios, o país desenvolveu um ecossistema minerador de referência, que inclui empresas internacionais, centros de pesquisa e mercados de capitais especializados.

 

Recursos, tecnologia e investimento

O Canadá é, há anos, o principal investidor em mineração na América Latina e no Caribe. Entre 2005 e 2024, os planos de investimento em metais e minerais provenientes desse país somam mais de 62 bilhões de dólares, representando quase 28% do total regional. Em 2024, o Canadá lidera a participação estrangeira em projetos mineradores do Chile e do Peru, com 28% e 19%, respectivamente. No Chile, a maior parte do investimento é nacional, enquanto no Peru predomina o investimento estrangeiro.

Esse protagonismo é impulsionado pelo sistema financeiro canadense, particularmente ativo no setor minerador, e apoiado por duas bolsas de valores (Toronto Stock Exchange e TSX Venture Exchange), que canalizam capital para projetos em diferentes fases de desenvolvimento, especialmente na exploração.

Mas a contribuição vai além do financiamento. “O Canadá aporta conhecimento e tecnologia, já que dispõe de um importante ecossistema, com universidades e apoio governamental por meio de iniciativas para promover pesquisa, desenvolvimento e inovação no setor”, acrescenta Salazar-Xirinachs. Parte desses avanços é transferida para os países latino-americanos onde atuam empresas canadenses, fortalecendo capacidades locais e aumentando a produtividade.

A cooperação não se limita à produtividade, pois também abrange o impacto social e ambiental dos projetos. Esse aspecto é especialmente relevante em um contexto em que a sustentabilidade se tornou um fator central para a viabilidade da mineração. Iniciativas como “Rumo a uma mineração sustentável”, promovida pela Associação Mineira do Canadá, ou programas de cooperação internacional voltados ao fortalecimento de cadeias de suprimento responsáveis e resilientes de minerais críticos, buscam consolidar práticas responsáveis e melhorar a governança do setor.

 

Pontos fortes da América Latina

A América Latina é especialmente atrativa para atores mineradores internacionais devido à alta disponibilidade e qualidade de seus recursos, ao acesso a mão de obra qualificada e, em muitos casos, à estabilidade normativa que regula a exploração mineradora e à abertura ao investimento estrangeiro.

“Na última década, a crescente demanda global por minerais críticos intensificou a competição geopolítica e econômica entre as principais economias industrializadas”, explica o especialista. Muitos desses minerais são essenciais para tecnologias associadas a energias limpas, bem como para setores estratégicos como tecnologia da informação, comunicações e defesa.

Além disso, a região conta com abundantes recursos solares, eólicos e hídricos, o que permite integrar energias renováveis e água dessalinizada em projetos mineradores, garantindo um abastecimento mais responsável e sustentável. “O uso de energias limpas e fontes hídricas que não competem com outros recursos ajuda a reduzir a dependência de combustíveis fósseis e mitigar conflitos socioambientais nos territórios”, afirma.

 

Minerais críticos como motor de desenvolvimento

Os minerais estratégicos, além de uma oportunidade econômica, podem se tornar um instrumento de transformação produtiva para os países da América Latina. “Esses setores são fundamentais para o desenvolvimento porque se alinham com as vantagens competitivas potenciais dos países e possuem alta capacidade de dinamizar o crescimento e a produtividade por meio de diferentes mecanismos: estímulo à inovação, fortalecimento da diversificação econômica, modernização tecnológica, geração de receitas fiscais e criação de empregos dignos.”

Além disso, podem contribuir significativamente para os objetivos de descarbonização e para uma produção mais sustentável do ponto de vista ambiental. “Seu aproveitamento sob esquemas de governança moderna, sustentabilidade e agregação de montante pode gerar efeitos multiplicadores na estrutura econômica, promovendo uma relação mais equilibrada e mutuamente benéfica entre países produtores e consumidores durante a transição energética”, acrescenta.

 

Desafios de uma cooperação produtiva

Se as vantagens dessa aliança são evidentes, os desafios também são relevantes. Os principais estão relacionados à necessidade de conciliar as lacunas e necessidades dos países produtores e dos países demandantes de recursos. Por um lado, a América Latina precisa avançar rumo a uma exploração mais responsável e sustentável dos minerais e fortalecer os encadeamentos produtivos, tanto a montante quanto a jusante da mineração. Por outro, os países consumidores buscam garantir sustentabilidade, rastreabilidade e segurança nas cadeias de suprimento.

“Uma forma de conciliar esses interesses e fortalecer a cooperação seria que os países compradores estabelecessem mecanismos mais robustos de transferência de conhecimento e tecnologia. Essas ações poderiam fortalecer os ecossistemas de ciência, tecnologia e inovação da região, facilitando sua adaptação às novas demandas globais”, afirma Salazar-Xirinachs.

Ao mesmo tempo, os países latino-americanos poderiam ampliar suas capacidades institucionais, técnicas e operacionais para aproveitar melhor os processos de transferência tecnológica e desenvolver cadeias de montante mais sofisticadas. “Dessa forma, seria possível gerar relações de cooperação mais equilibradas e mutuamente benéficas”, conclui.

 

Este artigo teve a colaboração de…

José Manuel Salazar-Xirinachs_redJosé Manuel Salazar-Xirinachs assumiu o cargo de secretário executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) em 3 de outubro de 2022. Possui uma destacada trajetória em organismos internacionais. Trabalhou na Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Organização dos Estados Americanos (OEA), no governo da Costa Rica, na Corporación Costarricense de Desarrollo e na FEDEPRICAP.

No âmbito acadêmico, publicou extensivamente sobre desenvolvimento, comércio, transformação produtiva, competitividade e emprego, e lecionou na Universidade da Costa Rica, na Universidade Nacional de Heredia, na Universidade de Cambridge e na Universidade de Georgetown. É graduado em Economia pela Universidade da Costa Rica, possui Mestrado em Economia do Desenvolvimento e Doutorado em Economia pela Universidade de Cambridge.

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