A logística centralizada da Inditex. Um modelo de sucesso para chegar ao mundo inteiro


Primeira varejista têxtil no mundo, a Inditex se estabelece como exemplo de negócio internacional. Com vendas em 202 mercados através de sua plataforma online e conta com 7.420 lojas em diferentes lugares da geografia mundial. Esta expansão não teria sido possível sem um sistema logístico inovador e meticuloso, que reflete um de seus principais fatores de sucesso, e com a característica de que todas as operações de distribuição e armazenamento mundiais se encontram centralizadas na sede de Galícia.

Arteixo comporta o principal centro de distribuição de mercadorias, que conta com o suporte de outros treze armazéns distribuídos em várias regiões da Espanha: Barcelona, Madri, Guadalajara, León, Alicante, Saragoça e A Corunha. Toda a produção do grupo, independente do local de elaboração do produto, é recebida em uma destas plataformas logísticas centrais, todas elas próximas às sedes das oito marcas do grupo. Em efeito, a proximidade da produção é um elemento indispensável para garantir a agilidade na distribuição. A logística se complementa com outros centros de menor tamanho, localizados em diferentes países, e com operadores logísticos externos que realizam procedimentos de distribuição de volume reduzido.

Os produtos chegam a cada centro logístico procedentes das fábricas dos provedores localizados em 43 países, embora 57% seja de proximidade (Espanha, Portugal, Turquia e Marrocos). Os armazéns contam com enormes silos para o depósito das peças e diferenciação segundo modelo, tamanho e cor. Um complexo mecanismo automatizado permite a um mesmo centro distribuir a roupa solicitada por cada loja do mundo.

Para Antonio Iglesias, diretor de Logispyme e coordenador acadêmico do Mestrado em Logística e Cadeia de Fornecimento + SAP ERP da ESIC, o principal alcance dessa engrenagem logística é, precisamente, o que tornou a empresa uma referência mundial: “a flexibilidade para se adaptar aos gostos dos consumidores em todos os países, sendo capazes de responder em um curto período de tempo a qualquer variação na cadeia de fornecimento: do design à fabricação e distribuição”. Assim, quando a loja ou o cliente online iniciam o pedido, o abastecimento acontece em um prazo máximo de 48 horas para qualquer lugar do mundo (36 horas se for território europeu).

Mas, conforme as palavras de Iglesias, existem aspectos chave para que este processo logístico funcione: o controle do inventário em cada uma das plataformas e um adequado gerenciamento da informação nos pedidos dos clientes: tanto nas próprias lojas (onde o serviço de estocagem é mais simples de programar de maneira contínua) ou via e-commerce (onde são preparados maior número de pedidos, mas com menor quantidade de produto).

Aposta pela Tecnológica

Um dos principais trunfos da Inditex é seu investimento em inovação: nos últimos seis anos, a companhia tem dedicado 2 bilhões de euros à tecnologia e logística, tentando reforçar essa estrutura de produção e distribuição muito centralizada, para otimizar custos e gerar o menor número de desperdícios na cadeia de fornecimento.

Todo o processo logístico não seria possível sem grandes sistemas tecnológicos que permitem contar com informação em tempo real. “A fim de tentar controlar um dos grandes problemas do retail, como são os inventários, é preciso possuir informação em pouco tempo para poder analisar a evolução dos dados e tomar decisões relativas aos inventários, recursos humanos ou materiais, etc.”, sublinha o professor da ESIC. Além disso, o sistema centralizado pode ser mantido graças à automatização dos processos operacionais nos armazéns e à disposição de empresas muito vinculadas em todos os processos de transporte das mercadorias.

Muitas ferramentas e softwares empregados no processo logístico foram feitos sob medida, desenhados e desenvolvidos internamente. Este é o caso das áreas de multishuttle, na plataforma de Bershka de Barcelona, e no centro de distribuição de Arteixo. Segundo a explicação de Iglesias, são sistemas automáticos que servem para armazenar temporariamente e realizar o sequenciamento dos produtos entre inventário a granel e outras funções, como picking e ensamblagem de pedidos. Este sistema incrementa a eficiência e precisão no gerenciamento dos tempos de envio e permite dobrar a velocidade de tráfego, armazenamento e coleta das caixas.

Modelo logístico da Inditex

Fonte: Memória Anual 2018 da Inditex

Eixo sustentável

A sustentabilidade é outro dos eixos de sustentação da logística de Inditex e que está presente em todos os passos do processo: da construção e gestão dos centros logísticos ao transporte e distribuição de mercadorias. “A Inditex, como companhia que persegue uma logística sustentável, realiza o controle de custos e ao mesmo tempo busca a maneira de reduzir as externalizações, para alcançar o equilíbrio entre o crescimento econômico, o cuidado do meio ambiente e o bem-estar social”, aprecia Iglesias. Para isso, é analisado o custo logístico em termos monetários, enquanto é calculado o custo que a companhia gera em poluição do ar, ruídos, vibrações e acidentes.

Nesse sentido, já foram introduzidos nas plataformas logísticas, entre outros elementos de sustentabilidade, sistemas de iluminação ecoeficiente, isolamentos térmicos e sofisticados sistemas de controle de temperatura. O transporte interno dentro das plantas é realizado mediante bicicletas e veículos elétricos e, no último ano, o grupo conseguiu que 100% da energia consumida proceda de fontes renováveis.

Essa exigência ecológica é também transmitida aos provedores que trabalham com a Inditex. A densidade da embalagem de cada envio foi aperfeiçoada e otimizada a distribuição europeia com o uso da logística inversa, visando a centralização das devoluções na Espanha e evitando o retorno de caminhões vazios. Em 2018, essa melhoria nos fluxos de retorno evitou um total de 5.163 viagens, número que representou uma economia de nove milhões de quilômetros e de suas emissões associadas.

Venda online no mundo inteiro

Um passo a mais na expansão do negócio da Inditex, que representará um autêntico desafio para o sistema logístico do grupo, é o compromisso de que será possível comprar online de “qualquer” ponto do mundo “qualquer produto” de “quaisquer” de suas marcas para 2020, coisa que nem sequer a Amazon consegue fazer.

venta online

O principal desafio logístico da Inditex é o compromisso de vender online em qualquer parte do mundo a partir de 2020

Para isso, o grupo prevê que no próximo ano todas as lojas gerenciarão um estoque integrado, idêntico tanto nas lojas físicas quanto na venda online, simplificando a cadeia logística. Então, será possível atender aos pedidos online na própria loja sem contar com outro inventário específico. Para tal, um sistema de identificação de produtos por radiofrequência (RFID) será implementado, que permitirá conhecer a localização exata em cada momento.

Embora ainda não foram divulgados os detalhes concretos de todo o processo, o professor da ESIC considera que o gigante galego será capaz de consegui-lo com as soluções logísticas cada vez mais avançadas que existem e que a Inditex adapta de maneira imediata. O emprego de aviões e drones nas entregas, e as alianças com parceiros locais potentes, com grande capilaridade para garantir a entrega, serão aspectos chave.

Porém, assinala duas variáveis que condicionarão o serviço: “o prazo de entrega sempre será maior nos lugares onde a companhia não conta com uma rede de lojas”; e a incidência que pode ter o custo logístico no preço da roupa (“é possível que em algumas não seja relevante, mas em outras pode representar que o Preço de Venda ao Público (PVP) não seja competitivo, questão que ficaria refletido nas vendas”).

Riscos logísticos

A fim de evitar esses e outros riscos, o grupo realiza análises contínuas de todos os fatores que podem influir negativamente no objetivo de obter a máxima eficiência na gestão da logística, monitorando de maneira ativa com supervisão do Comitê de Logística da companhia.

Para mitigar o risco derivado da interrupção de operações por eventos alheios à Inditex (incêndios, greves de transporte e blecautes energéticos, entre outros), otimizam a dimensão e o uso de todos os centros atendendo ao volume de cada cadeia ou às necessidades específicas da área geográfica correspondente. Por isso, parte dos centros logísticos estão especializados na distribuição de mercadoria procedente de vendas online e cada armazém foi configurado para assumir a capacidade de armazenamento e distribuição de outros centros, em caso de uma situação de contingência que possa inabilitar as atividades de distribuição.

Assim mesmo, a Inditex prepara ações para reduzir a exposição a esse tipo de riscos, mantendo elevados níveis de prevenção e proteção em todos os centros de distribuição, e contando com apólices de seguro que cobrem tanto os danos materiais que podem sofrer as instalações e o estoque, quanto o lucro cessante derivado de um sinistro.

Além disso, em caso de riscos derivados da retenção da mercadoria durante o transporte, a Inditex possui uma rede de agentes em pontos de abastecimento e distribuição, que se unem às vias alternativas de deslocamento da mercadoria.

Colaborador

Antonio Luis Iglesias, Director de Logispyme

Antonio Luis Iglesias é economista e mestrado em Gestão Comercial e Marketing pela ESIC, especializado nas áreas de Logística e Cadeia de Gestão de Fornecimento (SCM). Sua trajetória profissional no mundo da distribuição de produtos de grande consumo começou como técnico logístico em Simago, desempenhando posteriormente atividades de Direção Logística em Central Sociedad Cooperativa.

Nos últimos vinte anos, realizou atividades no âmbito da consultoria, trabalhando em consultoras de renome nacional para inúmeras companhias de diferentes setores (FNAC, The Phone House, Orange, Gefco, ECI, Royal Canin, etc.). Foi diretor da Área de Cadeia de Fornecimento do grupo Enfoque 5 Consultores. Posteriormente e na atualidade, desenvolveu seu trabalho no grupo Balanced Life.

Hoje em dia, é diretor de Logispyme, empresa dedicada ao assessoramento logístico da PME, e coordenador acadêmico do Mestrado em Logística e Cadeia de Fornecimento + SAP ERP da ESIC.

Destaca-se também sua faceta como palestrante e colunista. É coautor do Manual de Logística em Distribuição Comercial e autor do blog http://logispyme.wordpress.com

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By |2019-10-10T09:42:57+02:0008-10-2019|