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A gestão de riscos: um elemento estratégico para as organizações do século XXI

Cristina Leon Vera | 29/01/2026

Em um ambiente global caracterizado pela incerteza, pela aceleração tecnológica e pela interconexão dos mercados, a gestão de riscos deixou de ser uma função marginal ou reativa para se tornar um elemento central da gestão empresarial moderna. Hoje, gerir riscos não significa apenas evitar perdas; implica antecipar mudanças, proteger o valor da organização e criar as condições necessárias para um crescimento sustentável.

A gestão de riscos funciona como um processo sistemático, contínuo e estruturado que permite identificar, analisar, avaliar e tratar os riscos que afetam uma organização em seu caminho rumo ao cumprimento de seus objetivos. Esse processo não se limita a um departamento específico, mas atravessa todos os níveis da empresa e se integra à sua cultura, à sua governança e à sua tomada de decisões estratégicas.

Um dos traços fundamentais de uma gestão de riscos eficaz é o seu caráter transversal. Cada pessoa, da alta direção às equipes operacionais, tem responsabilidades na identificação e no controle dos riscos dentro do seu âmbito de atuação. Além disso, a empresa não opera no vazio: ela se relaciona de forma constante com clientes, fornecedores, reguladores, empregados e a sociedade em geral. Esses grupos de interesse, ou stakeholders, influenciam e são influenciados pela forma como a organização gerencia seus riscos.

 

Da gestão tradicional ao Enterprise Risk Management

Durante muitos anos, as organizações abordaram os riscos de forma fragmentada. Os riscos financeiros, operacionais, tecnológicos ou regulatórios eram geridos separadamente, por departamentos distintos e sem uma visão global. No entanto, essa abordagem mostrou-se insuficiente, especialmente diante de crises complexas e sistêmicas.

É nesse contexto que surge o Enterprise Risk Management (ERM), ou Gestão Integrada de Riscos Empresariais. O ERM propõe uma abordagem holística, na qual todos os riscos são analisados de forma conjunta, considerando suas interdependências e seu impacto agregado sobre o valor da organização. Essa visão permite à alta direção compreender melhor a exposição total ao risco, priorizar recursos e evitar respostas isoladas ou contraditórias.

Entre as principais contribuições do ERM, destacam-se:

  • Sua capacidade de identificar riscos em nível corporativo,
  • Oferecer respostas integradas a múltiplos riscos e
  • Otimizar o uso de recursos.
  • Em vez de multiplicar controles desconectados, buscam-se sinergias que reforcem a proteção global da organização e aumentem sua eficiência.

 

O que entendemos por risco?

O risco é geralmente definido como a combinação da probabilidade de ocorrência de um evento e das consequências decorrentes desse evento. Na prática, é comum distinguir entre riscos puros, que apenas geram perdas (incêndios, acidentes, roubos), e riscos especulativos, associados a decisões empresariais que podem resultar em ganhos ou prejuízos, como investimentos, inovações ou expansões de mercado. Embora ambos os tipos sejam relevantes, em áreas como segurança, saúde ocupacional ou meio ambiente, o foco recai principalmente sobre a prevenção de danos.

Além disso, o risco pode ser analisado sob uma dimensão objetiva, mensurável por meio de probabilidades e estatísticas, e sob uma dimensão subjetiva, relacionada à percepção, à experiência e à atitude das pessoas diante da incerteza. Os riscos também podem ser analisados conforme sua origem: estratégicos, operacionais, financeiros, relacionados ao conhecimento ou associados à conformidade legal e normativa.

 

O processo de gestão de riscos

A gestão de riscos segue um processo lógico e ordenado, que facilita sua integração à tomada de decisões empresariais. Tudo começa com a definição do escopo, do contexto e dos critérios de risco. A organização deve esclarecer quais são seus objetivos, em quais ambientes atua e quais níveis de risco está disposta a assumir, em função de sua estratégia, de sua cultura e dos ativos expostos.

O contexto inclui fatores externos, como condições econômicas, regulatórias ou sociais, e fatores internos, entre os quais se destacam a estrutura organizacional, a cultura corporativa, os sistemas de informação e a valorização dos ativos expostos.

A identificação de riscos busca reconhecer todos os eventos que podem facilitar ou impedir o alcance dos objetivos. Para isso, utiliza-se um amplo conjunto de técnicas: desde sessões de trabalho colaborativas até auditorias, análises de cenários ou estudos de incidentes passados. Em setores industriais, são empregadas metodologias específicas que permitem analisar desvios de processos, falhas potenciais ou causas raiz de acidentes.

Uma vez identificados, os riscos são submetidos à análise, avaliando-se sua probabilidade de ocorrência e as consequências que teriam caso se materializassem. Essa análise pode ser qualitativa, quantitativa ou mista e deve levar em conta os controles existentes, as interdependências entre riscos e a possibilidade de ocorrência simultânea de vários eventos.

Para a avaliação do risco, comparam-se os resultados da análise com os critérios definidos previamente. Essa etapa é fundamental para a tomada de decisões, pois permite determinar quais riscos são aceitáveis e quais exigem tratamento adicional.

 

Tratamento, transferência e monitoramento

O tratamento do risco consiste em selecionar e aplicar medidas para modificá-lo. Essas medidas podem estar voltadas a evitar a atividade que gera o risco, eliminar sua fonte, reduzir a probabilidade de ocorrência por meio da prevenção, mitigar as consequências por meio da proteção, aceitar o risco de forma consciente ou transferi-lo a terceiros.

A transferência do risco por meio do seguro continua sendo a ferramenta fundamental, amplamente utilizada para a gestão dos riscos residuais. O seguro proporciona estabilidade financeira, facilita a recuperação após um sinistro e oferece acesso a serviços especializados de prevenção. No entanto, nos últimos anos, surgiram soluções alternativas (ART, em sua sigla em inglês) que combinam mecanismos de seguros, resseguros e mercados de capitais.

Todo o sistema se apoia em duas atividades transversais essenciais: a comunicação e a consulta, que promovem uma cultura de conscientização e participação, e o monitoramento e a revisão, indispensáveis para garantir que o sistema permaneça atualizado, eficaz e alinhado a um ambiente em constante mudança.

 

Governança e cultura de riscos

Uma gestão de riscos eficaz exige uma estrutura de governança clara. A política de riscos deve definir o apetite ao risco da organização, atribuir responsabilidades e assegurar o cumprimento das normas aplicáveis. O conselho de administração define a direção estratégica, enquanto o gestor de riscos atua como coordenador, agente de mudança cultural e elo entre os níveis estratégico e operacional.

A auditoria interna, por sua vez, oferece uma visão independente que reforça a confiança dos grupos de interesse e contribui para a melhoria contínua do sistema. Em última instância, a gestão de riscos não é apenas um conjunto de procedimentos: é uma forma de pensar e agir diante da incerteza, uma competê

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