Cristina Leon Vera | 20/01/2026
O risco climático deixou de ser excepcional para se tornar um fator determinante para a economia, a sociedade e o setor segurador. A dana que afetou a Espanha em 2024 evidenciou esta realidade. Um ano depois, avaliamos com maior precisão seus efeitos.
Isso foi possível graças ao X Simpósio do Observatório de Catástrofes, realizado no Instituto da Engenharia da Espanha, que reuniu especialistas para analisar esse episódio catastrófico, o mais custoso já registrado no país e um dos mais disruptivos da história recente. No evento foi apresentado o Barômetro de Catástrofes 2024, um relatório de referência que examina desde a gestão da emergência até as consequências econômicas e sociais, bem como as lições aprendidas após o desastre.
“Não podemos evitar as catástrofes, mas podemos minimizar seus danos”, afirmou na abertura María Cruz Díaz Álvarez, presidente do Instituto da Engenharia da Espanha. Uma ideia reforçada por Pedro Tomey, presidente fundador do Observatório, que destacou que os fenômenos extremos “ocorrem com uma regularidade e uma força que, anos atrás, teríamos considerado excepcionais”.
O duro impacto da dana
Na Comunidade Valenciana, epicentro da dana, o dia 29 de outubro representou um ponto de inflexão, com efeitos socioeconômicos devastadores. A paralisação do mercado de trabalho nas comarcas afetadas foi quase total no início. No entanto, graças à resposta institucional e do setor segurador, não houve destruição massiva de empregos, e iniciou-se uma recuperação efetiva, ainda que desigual. Os municípios mais atingidos registraram um crescimento interanual de 6,1% em agosto de 2025, impulsionado pelos setores ligados à reconstrução, enquanto as áreas não afetadas mantiveram ritmos semelhantes aos de anos anteriores.
O balanço mais doloroso foi o das vítimas fatais. Victoria de Elizagarate destacou que, em 2024, 270 pessoas morreram em decorrência de desastres naturais, o maior número do século XXI, das quais 239 (89%) foram vítimas de inundações. A especialista ressaltou a necessidade de estabelecer planos de emergência inclusivos, com atenção especial às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, grupo que sofreu de forma desproporcional os efeitos do desastre.
Fragilidade cultural e operacional do território
Todos os palestrantes concordaram que a comunicação e o atendimento às vítimas eram prioritários, mas também destacaram o profundo impacto dos danos materiais na vida das pessoas. A perda de bens culturais, moradias, equipamentos ou infraestruturas afeta diretamente o bem-estar das comunidades.
Uma das contribuições mais inovadoras do Barômetro 2024 foi a análise do impacto sobre bens culturais e históricos. A dana afetou 564 bens de interesse cultural e de relevância local, concentrando-se a maior parte na zona zero, especialmente igrejas, ermidas e patrimônio etnográfico. A avaliação do estado desses bens cabe ao Ministério da Cultura, pois constituem a memória coletiva e contribuem para a resiliência social quando restaurados. Para prevenir danos futuros, o relatório recomenda desenvolver planos de emergência para o patrimônio histórico e digitalizar arquivos, já que danos por água ou fogo podem destruir um legado de valor incalculável.
Durante sua intervenção, Leire Labaka abordou a vulnerabilidade das infraestruturas críticas diante de um evento dessa magnitude e aprofundou o impacto sobre setores como energia, água, transporte e telecomunicações, com um custo total superior a 1,84 bilhões de euros. As infraestruturas hidráulicas foram as mais afetadas (1,3 bilhão), e o isolamento deixou 180 mil usuários sem fornecimento de energia elétrica por dias, além de interromper mais de 500 mil linhas de telecomunicações. Labaka concluiu que a dana evidenciou a urgência de modernizar e reforçar essas infraestruturas.
Para finalizar a análise do barômetro. Víctor Pérez falou do impacto social, condicionado por desigualdades prévias. Lançou a seguinte pergunta: quais atributos da sociedade atuaram como moderadores do impacto da dana? Em sua resposta, o especialista mostrou um padrão dual: áreas costeiras e metropolitanas dinâmicas, em contraste com um interior envelhecido e de menor renda, que também apresenta menor capacidade de resposta. O barômetro conclui que a vulnerabilidade não depende apenas da magnitude da catástrofe, mas também das desigualdades preexistentes, e defende que o planejamento territorial e a gestão do risco incorporem explicitamente o componente social.
Gestão seguradora: uma operação sem precedentes
A mesa-redonda composta por Celedonio Villamayor (CCS), Santiago Duro (Agroseguro) e Manuel Mascaraque (UNESPA) permitiu compreender a magnitude do esforço da indústria seguradora diante da maior catástrofe da história recente. Villamayor destacou uma operação extraordinária em recursos humanos, meios técnicos e coordenação entre entidades, com mais de 4 bilhões pagos em tempo recorde. Entre as lições aprendidas, apontou coberturas insuficientes, exclusões inesperadas e lacunas em lucro cessante, além de apólices não preparadas para perdas totais ou de alta intensidade.
Pela Agroseguro, Santiago Duro lembrou que a entidade está habituada a gerir danos catastróficos, mas que a escala da dana foi singular, com mais de 10.000 agricultores e pecuaristas afetados. Identificou três eixos principais de aprendizado após a experiência. O necessário apoio tecnológico na assistência e avaliação de danos, a imprescindível proximidade e empatia com o segurado em momentos de extrema vulnerabilidade, e processos claros, com perícias imediatas, rigorosas e coordenadas com cosseguradoras e instituições.
Outras abordagens: inclusão e reconstrução
O simpósio incluiu palestras transversais: Lourdes González, da Fundação ONCE, destacou a importância de projetar ambientes adaptados e de capacitar a população sobre como agir em emergências envolvendo pessoas com necessidades especiais. Por sua vez, Javier Machí, decano do Colégio de Engenheiros de Caminhos da Comunidade Valenciana, revisou os danos, os problemas de contenção e a necessidade de reforçar sistemas de alerta precoce e estratégias de reconstrução baseadas na resiliência.
O encerramento contou com a apresentação do relatório PERC sobre as inundações em Valência e uma palestra sobre os incêndios florestais de 2025, cuja análise detalhada será abordada em breve na revista.
Em conclusão, esta décima edição do Barômetro de Catástrofes redefiniu a gestão do risco climático na Espanha, em todos os âmbitos imagináveis. Colocou à prova infraestruturas, administrações e seguradoras, revelou vulnerabilidades sociais e territoriais e demonstrou a capacidade de reação da indústria seguradora diante de eventos extremos.
Conclusões do Barômetro 2024
A apresentação ficou a cargo de Victoria de Elizagarate, coordenadora do Barômetro Anual de Catástrofes; Julio Ortega Carrillo, especialista em Economia Aplicada na Analistas Financieros Internacionales; Leire Labaka, catedrática da Escola de Engenharia Tecnun, Universidade de Navarra; e Víctor Pérez Segura, professor da Escola Técnica Superior de Engenharia da Universidade Pontifícia Comillas (ICAI-ICADE), que delinearam o alcance real de um ano extraordinário.
O primeiro palestrante do dia, Julio Ortega, expôs que os custos segurados por desastres naturais atingiram a cifra mais alta da história (6,335 bilhões de euros), superando inclusive a soma dos três anos anteriores. Desse total, 83% (5,26 bilhões) corresponderam exclusivamente à dana de Valência, o evento mais custoso já registrado na Espanha. Sem esse episódio, 2024 teria sido o ano de menor custo segurado desde 2016.
O Consórcio de Compensação de Seguros (CCS) assumiu a maior parte do impacto, com 4,954 bilhões em indenizações, aos quais se somaram 53 milhões da Agroseguro e 192 milhões da UNESPA. O restante das catástrofes do ano representou pouco mais de um bilhão adicional.
Quanto à distribuição por tipo de evento, 2024 apresentou uma anomalia estatística: enquanto na Espanha é habitual que o peso recaia sobre o granizo ou a seca, naquele ano 90% dos custos decorreram de inundações.
O impacto econômico total sobre os bens alcançou 6,67 bilhões de euros, equivalente a 0,43% do PIB espanhol. Na Comunidade Valenciana, a fatura ultrapassa 4,56% do PIB regional.



