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Cabos submarinos: a maior rede mundial de telecomunicações

Em um mundo cada vez mais digitalizado, as conexões que sustentam esta tecnologia se converteram em um mapa do desenvolvimento econômico das regiões. Atualmente, 99% das telecomunicações são feitas por cabos submarinos, artérias principais da Internet e da conectividade global. Noelia Miranda, responsável por Desenvolvimento Técnico e Formação do Colégio Oficial de Engenheiros de Telecomunicação (COIT), traça os principais vínculos existentes e revela os desafios e as oportunidades que o setor enfrenta.

Como vem sendo revelado nos últimos anos, o papel dos cabos submarinos na articulação das telecomunicações terrestres não é só fundamental, mas também protagonista. Noventa e nove por cento das conexões são suportadas por essas infraestruturas ocultas sob o oceano, que atravessam o planeta em sua totalidade. Como nos explica Noelia Miranda, responsável por Desenvolvimento Técnico e Formação do Colégio Oficial de Engenheiros de Telecomunicação (COIT), são as artérias principais da Internet e da conectividade mundial, e transmitem rapidamente grandes quantidades de dados procedentes de empresas, usuários e administrações de um ponto a outro.

O desenho traçado por esses cabos não apenas mostra como a informação circula, mas também forma um mapa indicador dos fluxos de poder econômico entre os diferentes continentes. “A África é um dos lugares menos conectados. É curioso constatar que, em muitos casos, são seguidas as rotas utilizadas pelos cargueiros que transportam mercadorias. Uma das áreas onde proliferam cabos submarinos é a que vai de Cingapura ao Japão, passando por Taiwan, Indonésia, Coréia, Filipinas e China. Esta é a área por onde estes navios mais circulam, que transportam mercadorias de fábricas africanas. Na Europa, a costa leste do Reino Unido conta com mais de uma dúzia de cabos por onde passa a maior parte da informação que viaja a partir dos Estados Unidos”, explica Miranda.

Estas conexões submarinas são essenciais para a sociedade, já que nelas se baseiam a atividade e a economia global, e interromper repentinamente seu serviço poderia provocar um estado de emergência. Mas essa paralisação é possível? “Parece pouco provável, salvo catástrofe de âmbito mundial. Embora ao longo dos anos tenha havido precedentes de pequena escala para cortes em alguns cabos submarinos, como no terremoto de Taiwan de 2006 que afetou as comunicações da China e de outros países próximos”, diz a especialista.

 Ampla infraestrutura em crescimento

Sob águas internacionais operam hoje em dia mais de 436 cabos de fibra óptica, o que em extensão equivale a cerca de 1,3 milhão de quilômetros. Segundo o índice anual de interconexão global GXI da Equinix, a América Latina será a região com maior capacidade de banda larga para interconexão durante os próximos anos, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 50% entre 2019 e 2023. Este crescimento é impulsionado por uma conjuntura tecnológica incontrolável, com fatores destacados por Noelia Miranda. “O aumento de dispositivos com conectividade, uma economia cada vez mais digital e baseada nos dados e a quantidade de informação que acessamos e compartilhamos. Trata-se de um mercado em clara expansão, como o mostra o relatório da Research and Markets ‘Submarine Optical Fiber Cabos’, que assinala que o mercado global chegará a 30.800 milhões em 2026, crescendo a uma taxa anual de 14,3%”.

Como exemplo de desenvolvimento do COIT, eles nos falam sobre o 2Africa, que cobrirá cerca de 37.000 quilômetros e conectará a Europa (Catalunha) com a Ásia, Oriente Médio e África. Este projeto, financiado pelo Facebook e por várias empresas de telecomunicações, mostra tanto em seu planejamento quanto em sua execução o futuro do setor, e faz parte das metas que estão definindo seu desenvolvimento. “Eu destacaria esses novos agentes investidores, como Facebook, Amazon ou Google, além dos aspectos geopolíticos associados às rotas e sua proteção”, explica. A entrada de grandes empresas tecnológicas tem sido essencial. “O ano de 2016 marcou o crescimento do setor de cabos submarinos. Até então eram propriedade de empresas privadas, em sua maioria de telecomunicações. Isto tem provocado a chegada das grandes empresas tecnológicas, embora algumas já tenham iniciado antes, como o Google, para, assim, controlar sua dependência das operadoras e garantir determinada qualidade no acesso a seus conteúdos. Essas empresas têm uma poderosa musculatura de investimento que lhes permite enfrentar esse tipo de projeto”, afirma.

O posicionamento da tecnologia submarina, bem acima da tecnologia de satélite, é baseado em três variáveis: custo, capacidade e latência. “Pôr em órbita um satélite e mantê-lo implica uma versão bem superior. A capacidade de transmissão dos cabos é muito maior. Quanto à latência, a comunicação por satélite é bem mais lenta, já que o sinal deve viajar da Terra 36.000 quilômetros, de volta a uma antena terrestre, e depois seguir sua rota habitual até o site ou o serviço necessário nesse momento. Além disso, os cabos são menos sensíveis às condições climáticas. Na contramão, um terremoto ou um tsunami afetam a sua comunicação”, explica Noelia Miranda.

Estes cabos operam há cerca de 25 anos, embora a sua atividade seja normalmente determinada por questões de rentabilidade, chegando mais cedo ao fim da sua vida econômica. “A manutenção de um cabo representa um custo fixo que às vezes não pode competir com um cabo de maior capacidade e layout semelhante. Ou seja, podemos nos deparar com cabos que ainda podem estar operacionais, mas que estão desligados porque não faz sentido mantê-los economicamente falando”, explica a especialista. Os processos de substituição de cabos obsoletos consistem na recuperação por içamento, realizada com navios de grande porte com capacidade de armazenar milhares de quilômetros e suportar as pressões de peso e tensão geradas pelas diferentes manobras que serão realizadas. Na atualidade há poucos processos de recuperação em andamento, e obedecem principalmente a iniciativas de cunho ambiental. “Trata-se de um processo de planejamento e operação que, como ocorre com a instalação, leva alguns anos. Por outro lado, há alguma controvérsia sobre se a própria remoção afeta mais o meio ambiente ou se fica no fundo do mar”, diz Noelia Miranda.

 Nesse quadro de inovação e certa necessidade de comunicação, o futuro do setor enfrentará muitos desafios de acoplamento, mas um caminho seguro para o crescimento. “No mundo hiperconectado em que vivemos, o que está claro é que vão ser necessárias infraestruturas mais potentes que suportem maiores velocidades de transporte e baixas latências, portanto, espera-se que seja um mercado em ascensão”, conclui a responsável pela Desenvolvimento Técnico e Formação do COIT.

 Colaborou neste artigo…

Noelia MirandaNoelia Miranda Santos é Engenheira de Telecomunicação pela Universidade Politécnica de Madri, e responsável por Desenvolvimento Técnico e Formação do Colégio Oficial de Engenheiros de Telecomunicação (COIT). Tem experiência profissional em soluções tecnológicas utilizadas em telecomunicações e nos aspectos de política econômica e regulamentar das telecomunicações.

É Secretária Técnica do Grupo de Regulamentação e Políticas Públicas do COIT, além de membro e representante do órgão em múltiplos fóruns do setor das telecomunicações e TIC.

Participou e foi coautora, representando o COIT, de várias publicações, artigos e palestras em revistas, jornadas e congressos. É formada em gestão e coordenação de projetos, destacando-se também no desenvolvimento de novos serviços e no diagnóstico e prospecção de novas oportunidades profissionais para os engenheiros das telecomunicações.

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