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Augusto Pérez Arbizu: “Eu destacaria o espírito pioneiro como uma das chaves do sucesso”

A Telefónica foi premiada com o IV Prêmio Internacional à Excelência na Gerência de Riscos, concedido pela MAPFRE Global Risks, em reconhecimento à sua gestão e cultura de prevenção de riscos. O prêmio foi recebido por Augusto Pérez Arbizu, Risk Manager da empresa, e, na ocasião, aproveitamos para conversar com ele.

O Prêmio Internacional à Excelência na Gerência de Riscos chega à sua quarta edição nas Jornadas Internacionais da MAPFRE Global Risks, celebradas em Málaga entre 5 e 7 de junho. O prêmio, entregue por Eduardo Pérez de Lema, presidente da MAPFRE Global Risks, diante de cerca de 500 gestores de risco, reconhece o trabalho, as políticas e a cultura para a gestão, prevenção e proteção dos riscos realizada pela Telefónica.

Augusto, parabéns! O que significa este reconhecimento ao trabalho da Gerência de Riscos que vocês fazem no Grupo Telefónica?

Significa um enorme reconhecimento para a equipe da Telefónica que tornou isso possível e a qual tenho a honra de representar. Mas isso só é possível com uma missão clara e uma estratégia de longo prazo, por isso se trata de um sucesso coletivo de todas as pessoas que fizeram parte da Gerência de Riscos da Telefónica desde que Javier Navas Olóriz criou o departamento em 1983. Desde então, vem-se buscando sempre a excelência, inovando e enfrentando desafios contínuos até hoje.

Por outro lado, este reconhecimento reforça dentro do Grupo Telefónica o papel fundamental que nossa equipe de Gerência de Riscos desempenha para tornar a organização mais sustentável e resiliente.

O que você acha que é a força motriz de uma gestão de riscos bem-sucedida?

Acho que os valores e a cultura da empresa são fundamentais. O Gerente de Riscos deve contribuir para essa cultura, mas são os principais órgãos de governança da empresa que a definem. A cultura de prevenção de riscos deve estar incorporada ao DNA de cada “proprietário do risco” e de cada funcionário, levando esse raciocínio ao extremo.

O Gerente de Riscos se torna um catalisador. Às vezes, é melhor não intervir mais do que o necessário nas fases de identificação/avaliação/mitigação, nas quais o proprietário do risco tem uma experiência e uma bagagem que devemos respeitar e valorizar.

Nosso papel será protagonista na última fase de busca e projeto de soluções de financiamento de Riscos. Nesse momento, a atitude do Gerente de Riscos perante o Mercado não deve ser a do comprador de seguros, mas a do vendedor que, confiante no seu produto, vende os riscos de sua própria organização.

Além disso, eu destacaria um dos valores da Telefónica, o “espírito pioneiro”, como uma das chaves do sucesso em nosso caso. Ser pioneiro significa passar por terrenos inexplorados, ser o primeiro a fazer algo. Ser pioneiro tem muito a ver com inovação. Há inúmeros exemplos nos quais a Telefónica foi a primeira a fazer algo e isso se reflete na sua Gerência de Riscos. Vou citar apenas três exemplos:

  • A Telefónica foi pioneira na criação de sua Resseguradora Cativa há 36 anos (em 1988).
  • A Telefónica foi pioneira na criação do primeiro Programa Multinacional de Riscos Cibernéticos em 2008, quando ainda era tratado como “risco emergente” e não era segurado no mercado.
  • Mais recentemente, a Telefónica foi pioneira desafiando algumas convenções estabelecidas pelo mercado com respeito à participação das Cativas no seguro de D&O.

Muitas vezes, inovar exige desafiar as práticas convencionais e os paradigmas atuais.

Nestes 100 anos de existência que vocês celebram em 2024, como evoluíram os riscos e a prevenção que uma empresa como a Telefónica enfrenta?

A evolução não foi linear, mas exponencial, de acordo com a evolução da tecnologia e da sociedade em geral. Portanto, a mudança no perfil de riscos da Telefónica foi acelerada e está concentrada na última etapa destes 100 anos. Talvez possamos considerar como momento decisivo o surgimento e a generalização do uso da internet há pouco mais de 25 anos.

Devido à rápida evolução tecnológica das redes e equipamentos de telecomunicações, ocorre o paradoxo de que os valores de reposição diminuem de um ano para outro, ao mesmo tempo que se criam redes mais resilientes e, portanto, com menor risco de lucro cessante frente a danos materiais. Ou seja, o risco tradicional de danos aos ativos materiais e lucros cessantes diminui. Uma característica muito exclusiva do setor Telco. Paralelamente, os riscos sobre intangíveis, tais como reputação, regulamentação, sustentabilidade, etc…. não param de crescer.

Os riscos tecnológicos adquirem especial relevância em uma empresa como a Telefónica. Como já mencionei, fomos pioneiros na criação de um Programa Multinacional de Riscos Cibernéticos há mais de 15 anos e não estávamos enganados. Hoje, na Gerência de Riscos da Telefónica consideramos que esse risco é mais crítico que o de risco tradicional de Danos Materiais. Há dois anos, mudamos completamente o modelo deste programa e decidimos mudar seu nome para Riscos Tecnológicos. Sempre quisemos dar a este risco uma abordagem aberta e não apenas vinculada a atos maliciosos de terceiros, mas a qualquer tipo de dano lógico (não físico) e suas consequências, seja na forma de perda de lucros, penalidades, perda de ativos digitais, reclamações de terceiros etc…

No mundo dos Riscos Tecnológicos ou Riscos Cibernéticos, a mera prevenção é claramente insuficiente e surge o conceito de Resiliência Cibernética. Além da prevenção, outros pilares, como detecção, resposta e recuperação, são fundamentais. Devemos presumir que sofreremos incidentes cibernéticos com certa recorrência. Trata-se de evitar que eles tenham um impacto significativo em nossas operações e demonstrativos financeiras. O último pilar é a adaptação. Devemos estar continuamente adaptando nosso modelo de defesa à rápida evolução desses riscos.

Pensando no futuro, não nos estenderemos aos próximos 100 anos, mas quais você acha que serão os riscos que terão o maior impacto global nos próximos 10 anos?

Os Riscos Cibernéticos continuarão a conquistar posições de destaque em todos os rankings devido à rápida evolução tecnológica e aumento incontrolável na digitalização de qualquer atividade e qualquer aspecto de nossas vidas. Hoje, mal vislumbramos os riscos que a Inteligência Artificial, a Biotecnologia, a condução autônoma ou a vida no metaverso podem enfrentar, para dar apenas alguns exemplos.

Outros riscos que, na minha opinião, continuarão a ter destaque são:

  • Riscos geopolíticos
  • Risco climático
  • Risco regulatório e/ou de cumprimento derivado do contínuo aumento da regulamentação.

Que valor você acha que a MAPFRE Global Risks pode trazer para a gestão de seus programas de seguros nessa próxima década?

A MAPFRE Global Risks tem sido muito flexível para se adaptar às necessidades da Telefónica. Resolveu há alguns anos de maneira extraordinária o eterno problema do mercado com os atrasos nos processos de emissão, bem como nos fluxos de liquidação de prêmios e sinistros com a Cativa. Também é muito valioso para nós a aposta decidida que a MAPFRE faz naqueles riscos da Telefónica que estão dentro de sua política de subscrição.

O padrão, portanto, já está muito alto com a contribuição de valor atual da MAPFRE na gestão de nossos programas. Contudo, já que me pedem uma projeção para a próxima década, eu lançaria à MAPFRE um desafio para aumentar de maneira paulatina seu apetite pelos riscos menos tradicionais, como, por exemplo, cibernético e outras linhas financeiras, que, como mencionado anteriormente, continuarão aumentando sua relevância no Mapa de Riscos da Telefónica.

Por último e fazendo um balanço destes últimos três dias, o que você destacaria da XXIX edição das Jornadas Internacionais Global Risks da MAPFRE?

Em primeiro lugar, devo felicitar a MAPFRE pela excelente organização e pela qualidade dos conteúdos. As Jornadas Internacionais da MAPFRE Global Risks já há muitos anos se tornaram uma referência no mercado. Quando se tem um padrão tão alto, fica cada vez mais difícil superar as expectativas e a MAPFRE consegue isso, edição após edição.

Foram sete painéis e quatro palestras, todos de altíssimo nível e tratados com grande profundidade, em especial nos referentes às tendências do mercado de Resseguro e de Casualty. Também destacaria a discussão sobre o crescimento exponencial dos prêmios de cibernético e como o volume ainda é considerado insuficiente (US$ 35 trilhões) em comparação com o mercado de Property.

Igualmente notável, o que foi tratado em torno da Inteligência Artificial, bem como o painel sobre Vida e Saúde, pois abordava que a Gerência de Riscos e as Áreas de Recursos Humanos podem colaborar para atrair talento e fidelizar os funcionários através dos benefícios sociais e sua flexibilização.

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A Inteligência Artificial na gestão de riscos

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