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Entrevista Emilio Carreño, Diretor da Rede Sísmica Nacional

“Os terremotos não se podem prever, nem aqui nem em nenhum outro lugar do mundo.”

Após concluir seus estudos de Ciências Físicas na universidade Complutense de Madri, Emilio Carreño começou sua caminhada profissional em empresas de geofísica relacionadas com os seguros e resseguros. A meados dos anos 80 incorporou-se à Rede Sísmica Nacional, instituição que dirige desde o ano 2000. Com sua vasta experiência e um amplo conhecimento do setor segurador, ele nos fala do cenário sísmico atual. 

1.Para que nos situemos, fale sobre a Rede Sísmica Nacional.

Somos um instrumento do Governo, e a primeira das nossas tarefas consiste na detecção e comunicação de todos os movimentos sísmicos que se produzem, não só na Espanha, mas também na área magrebina. Nós nos encarregamos de dar os parâmetros oficiais que avaliam um terremoto: magnitude, localização, profundidade…

O primeiro destinatário de toda essa informação é a Direção Geral de Proteção Civil e Emergências, porque é inegável que um terremoto tem repercussão social. Mas, além disso, as notas que coletamos são essenciais para saber como é a Terra. Sem esses movimentos e todos os dados registrados não saberíamos que existe um núcleo interno, um externo… o conhecimento que nos proporciona é imenso, porque com as provas geomagnéticas não teríamos suficiente. Não podemos fazer um buraco para ver o que há dentro, o que sabemos é graças à propagação das ondas sísmicas.

2. Com que instrumentos contam hoje em dia, e que tarefas fazem parte de seu trabalho?

Cada vez temos mais recursos técnicos, portanto, nosso trabalho, que em princípio se limitava à detecção destes eventos e sua localização, foi aumentando exponencialmente.  Primeiro, tivemos que incluir estudos de sismicidade e da incidência do homem. Realizamos uma vigilância extrema de muitas represas, sobretudo durante sua construção e enchimento, porque pode haver uma sismicidade associada a estas fases.

Também há estudos importantes relacionados com os armazenamentos subterrâneos de gás. Cada país tem a obrigação de ter algumas reservas de gás; na Espanha há bastantes instalações, e algumas delas podem dar problemas. Por isso fazemos relatórios de forma contínua, e conseguimos que as empresas que realizam estas obras de engenharia estejam obrigadas a instalar redes de controle específicas ao redor das explorações; redes que, na maioria dos casos, são também vigiadas e analisadas por nós, e graças aos exaustivos relatórios que fazemos.

Cada vez temos mais recursos técnicos, portanto, nosso trabalho, que em princípio se limitava à detecção de eventos sísmicos e sua localização, foi aumentando exponencialmente. Realizamos uma vigilância extrema de muitas represas, sobretudo durante sua construção e enchimento, porque pode haver uma sismicidade associada a estas fases.

Mantemos outra linha de atuação em nossa estação primária do sistema internacional de vigilância, situada em Sonseca – a 37 quilômetros de Toledo – de onde zelamos pelo cumprimento do ‘Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares’, que tem sua sede em Viena e pertence às Nações Unidas. Seus sistemas de detecção podem revelar se um país realiza provas nucleares, seja qual for sua situação.

Por último, desde há dois anos somos responsáveis pela Rede Nacional de Alerta de Tsunamis. Embora este fenômeno soe como o Caribe ou a Indonésia, a verdade é que o maior desastre natural que a Espanha sofreu foi o tsunami de 1775, derivado do terremoto de Lisboa, que causou ondas de até doze metros que afetaram grande parte da costa andaluza.

3. Que contribuição fazem ao regulamento de construção?

Nossa responsabilidade na regulação de construção sismo-resistente é muito importante, porque se estabelece através de uma comissão permanente presidida pelo Instituto Geográfico Nacional. A Rede Sísmica Nacional proporciona, também, um

4. É possível fazer uma previsão de atividade sísmica precisa e confiável?  Como avançaram os conhecimentos científicos e instrumentais nos últimos anos?

Não é possível prever os terremotos, nem aqui nem em nenhum outro lugar do mundo. Estamos nos aproximando muito da predição em alguns territórios onde há uma grande atividade sísmica – em países como Chile ou Japão, por exemplo, onde as placas tectônicas se movem a velocidades que produzem deslocamentos em torno de 58-60 milímetros por ano, que é muito. Mas por que nestes lugares é possível quase conseguir prever? Porque o desenvolvimento dos GPS nos últimos anos foi tão grande que podem detectar movimentos de forma quase instantânea. Sabendo isso, é possível calcular mais ou menos que traça vai romper-se, a magnitude do terremoto e quando vai suceder.

5. Os sismos são fenômenos naturais que transpassam fronteiras, e que afetam diversas partes do globo. A América Latina é uma das regiões que costuma sofrer suas consequências. Com quem e como vocês colaboram neste sentido com essa região?

A colaboração é por um lado global, porque nós temos acesso à informação que gera qualquer estação do mundo em tempo real. Mas além disso temos outros tipos de iniciativas, como as que realizamos com o CERESIS (Centro Regional de Sismologia para a América do Sul), com o qual este ano realizamos um curso sobre como realizar um mapa de periculosidade, no qual participaram alunos de 15 países da América.

Não é possível prever os terremotos, nem aqui nem em nenhum outro lugar do mundo. Estamos nos aproximando muito da predição em alguns territórios onde há uma grande atividade sísmica – em países como Chile ou Japão

6. Que características dos bens (edifícios/construções, etc.) são determinantes para o nível de perdas por terremoto?

As normas de construção tratam de evitar a perda de vidas humanas, e isso se consegue impedindo que os edifícios desabem. Esta regulação se estabelece como resultado das consequências do terremoto do México de 1985, quando muitos edifícios modernos desabaram. Agora tenta-se analisar os materiais dúcteis que se utilizam, e controlar os processos de construção para evitar esse desabamento.

A Espanha foi um dos primeiros países em ter regulamento de construção, em grande parte devido a nossa história na América Central, América do Sul ou Filipinas, onde há muita atividade sísmica. Concretamente em 1884, após o grande terremoto sofrido na Andaluzia, e que ocasionou mais de 1000 vítimas, o Rei estabeleceu ajudas para os cidadãos que tiveram de reconstruir suas casas, e a obrigação de fazer isso de acordo com umas normas que exigiam uma largura de rua determinada, uma altura, e uma separação de edifícios.

O regulamento atual data de 2002, apesar de que está a ponto de sair um código que unificará os critérios em toda a Europa, ainda que depois existam anexos que incluam as características de cada país.

7. Que parâmetros se têm em conta na hora de avaliar os efeitos de um movimento sísmico?

Existe uma norma europeia – a escala macrosísmica – muito definida, e aí especificam-se que porcentagem de edifícios e que tipos de construções devem ter sofrido danos dentro de todo o parque para catalogá-lo de um nível ou outro.

8. Como especialista em Riscos Naturais, como você acredita que evoluíram as coberturas seguradoras para dar resposta ao cenário atual?

O cenário espanhol é um caso especial porque existe o Consórcio de Compensação de Seguros, que realiza um trabalho excelente. Primeiro, porque são muito diligentes na hora de compensar aqueles que sofreram danos. E segundo, porque conta com uns peritos muito eficazes. Além disso, o setor segurador, e especialmente as companhias que têm interesses em outros países – sobretudo América Central e América do Sul – tem um nível altíssimo.

9. A Rede Sísmica tem uma estreita colaboração com o setor segurador, entre outras formas, através do fornecimento de informação. Poderia nos falar sobre esta cooperação e o que se proporcionam mutuamente?

Tanto com o Consórcio como com algumas companhias – como é o caso da MAPFRE – realizamos trabalhos conjuntos. Eles nos assessoram em temas de engenharia que nos permitem realizar projetos de divulgação pública. Por nossa parte, tratamos de solucionar as consultas que nos fazem, compartilhando todos os dados que possam precisar para o desenvolvimento da sua atividade.

10. Apesar de que não existem relatórios geológicos que confirmem, existe uma crença na relação entre a Mudança Climática e a escalada de terremotos. Você acredita que realmente há algum tipo de conexão?

Eu me posiciono com as grandes Resseguradoras, que têm especialistas com uma preparação e profissionalismo enorme – além de muito interesse em conhecer se existe realmente essa mudança ou não – e estas companhias fizeram estudos muito sérios e determinaram que não existe nenhuma relação. O número de terremotos importantes não variou com a passagem dos anos, e não se encontrou nenhuma relação com a Mudança Climática.

11. Estamos vivendo um incremento da atividade sísmica, ou estamos em níveis normais?

Dão-se duas circunstâncias: primeiro, que há mais e melhor instrumentação – aqui e em qualquer país do mundo -, com o qual muitos terremotos que antes não eram sentidos pela população, e portanto passavam desapercebidos, agora são registrados. Também é preciso ter em conta a visibilidade que se dá aos eventos, seja qual for o lugar em que se produzem. Agora podemos estar vendo a chegada de um Tsunami na costa da Indonésia pela televisão e em tempo real, e isso gera uma sensação na sociedade de que se produzem muito mais catástrofes que antes.

A Espanha é, também, um caso bastante curioso: apesar da baixa atividade sísmica que temos, no ano passado recebemos mais de 30 milhões de consultas em nossa web. De fato, temos um questionário à disposição de qualquer cidadão, com o qual eles podem nos enviar suas impressões, e mesmo depois de um tremor mínimo em uma população muito pequena podemos receber até 200 ou 300 questionários em uma hora. Há um enorme interesse por tudo relacionado com os terremotos e se traduz em colaboração cidadã, porque nos dão informação constante.  Mas a Espanha é um caso único.

Tanto com o Consórcio como com algumas companhias – como é o caso da MAPFRE – realizamos trabalhos conjuntos. Eles nos assessoram em temas de engenharia que nos permitem realizar projetos de divulgação pública.

12. Como se podem reduzir riscos, danos e custos – humanos e econômicos – dos terremotos, e que atores ou cenários seriam necessários?

Em nosso país realizam-se estudos muito bons de periculosidade em cada comunidade autônoma, e esta nos marca o nível de atividade que poderíamos ter em um lugar determinado, haja ou não edifícios expostos. Desde este ponto de vista os territórios estão muito estudados. O problema é que também seriam necessários estudos de risco sísmico, que além da periculosidade avaliassem a vulnerabilidade e o custo. Isto se poderia fazer em povoados pequenos, tendo um cadastro de todas as edificações, mas no âmbito estatal seria complicado realizá-los.

Emilio Carreño, Diretor da Rede Sísmica Nacional

Emilio Carreño Herrero (Segóvia, 1950) estudou Ciências Físicas na Universidade Complutense de Madri. Começou sua caminhada profissional em empresas de Geofísica, e colaborou com companhias de seguros e resseguros. A meados dos anos oitenta, e após aprovar o concurso para o Corpo Nacional de Engenheiros Geógrafos, entra para o Instituto Geográfico Nacional.

Dentro da administração desempenhou diferentes postos de responsabilidade, entre os quais destaca sua gestão do Centro Sismológico de Sonseca, estação que vela pelo cumprimento do ‘Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares’ em uma missão coordenada pelas Nações Unidas, e que permite, através de uma minuciosa vigilância, detectar se estão sendo realizadas provas nucleares em qualquer país.

No ano 2000 foi indicado como Diretor da Rede Sísmica Nacional, cargo que exerce desde então. Ao longo de sua carreira escreveu numerosos livros e publicações sobre sismologia, técnicas de interferometria por radar e de análises de imagens de satélite aplicadas à geofísica. Nos últimos anos colaborou com o Consórcio de Compensação de Seguros e com a MAPFRE na elaboração de material informativo de caráter geral sobre terremotos e tsunamis.

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